Incomodos, Observações do cotidiano

As breguices dos que se consideram chiques


Nesta sociedade de imperativos consumistas, fortalece um tipo de classe média que se preocupa não apenas em utilizar a sua renda para consumir mais e melhores produtos com o objetivo de ter mais conforto, mas principalmente em ostentar os seus padrões de pretensa “sofisticação”. E, muitas vezes, esta ostentação vai ganhando dimensões que se torna um profundo mau gosto.

A cidade de Santos, além de abrigar o lendário e mítico time do Santos F. C.  e nos anos 1950 ser considerada a cidade “vermelha” por ter intensa presença de militantes comunistas em especial entre os trabalhadores portuários, hoje é cenário privilegiado deste tipo de pessoa. Durante as férias, passei uns dias na casa de minha mãe nesta cidade e fotografei as fachadas de vários prédios que foram construídos recentemente, todos de alto padrão, para atender a demanda crescente deste tipo de classe média que cada vez mais adquire imóveis na região entre os canais 3 ds 5 (Embaré e Aparecida) desta cidade litorânea.

Vejam abaixo algumas fotos que tirei e vejam se eu não tenho razão.

Fachada de prédio na avenida do canal 5, em Santos, com um vidro fumê imenso na entrada que vira um megaespelho e com um espelho dágua na vertical. O jogador Neymar morava neste prédio antes de ir ao Barcelona.

DSC03225Prédio próximo a Avenida Epitácio Pessoa, entre os canais 4 e 5, no Embaré. A ostensividade da obra se expressa pelas colunas imensas na entrada, transformando-a em um tipo de “portal

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Este é ápice do kitsch. Fica na avenida beira-mar, próximo a Ponta da Praia. Um polvo “enfeita” a fachada lateral do prédio, com seus tentáculos descendo sobre a janela da garagem.

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Vejam o “portal” no estilo “mouro” deste prédio de apartamentos na Avenida Epitácio Pessoa esquina com a Siqueira Campos.  “Estiloso”, não é?

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Conclusão: poder de consumo não é sinônimo de bom gosto.

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Desapego


Na maturidade, uma das coisas mais importantes que se aprende é o desapego. Você passa a vida inteira atuando para construir e consolidar as coisas e cria a (falsa) expectativa de que elas tomarão um rumo que deseja.

Interessante isto. Os animais quando têm os seus filhotes, os criam durante o período em que eles não conseguem ainda, sozinhos, satisfazer as suas necessidades vitais – alimentarem-se, protegerem-se dos predadores, entre outros. Quando aprendem, são “libertos” e tomam os rumos que acharem melhor. Talvez porque a expectativa no reino animal seja mais simples – espera-se que eles saibam sobreviver.

Mas o universo humano é cultural. E ainda estamos impregnados pela lógica aristotélica da linearidade. A é A, e B é B. Pensar de forma complexa pode ser um exercício teórico factível, mas difícil na prática. E o desapego é uma das práticas mais complicadas e que se funda nesta complexidade.

O desapego tem que ser exercitado em vários momentos. Aquele filho ou filha que você criou e tem uma determinada expectativa, mas segue rumos distintos – não por sua culpa ou por sua influência, mas por decisão própria dele. Aquela relação amorosa que você espera durar para sempre e que chega uma hora se acaba e há o rito traumático da separação – cada um segue o seu rumo, inclusive com outras relações amorosas. Aquele trabalho que você investiu na expectativa que se transformasse em algo projetado – de repente, há uma mudança brusca de rota e você sobra. Aquele projeto político, social ou organizativo que você investiu energia pessoal, financeira, emocional também toma outros rumos. Aquela amizade que você cultivou por anos, de repente a outra pessoa toma atitudes inimagináveis e te magoa.

A princípio isto turva os olhos e parece fazer a vida pesada. Mas acontece ao mesmo tempo o surgimento de outras pessoas, outras oportunidades, outras relações amorosas, outros projetos que te convidam para novas relações, investimentos, engajamentos. A vida é como um andar nas calçadas de uma avenida enorme – você encontra pessoas que caminham com você durante um tempo (pequeno ou grande) mas em determinado momento dobram a esquina. Outras resolvem andar na direção contrária. Ou você resolve virar a esquina. São rumos diferentes que se encontram e desencontram. O desapego é ter a humildade que o seu caminho não é o único existente.

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Observações do cotidiano

Nomadismos I: pelo sudoeste de Minas


Um dos canyons do lago de Furnas

Em São João Batista do Glória, o dono de uma pousada e sua mulher tocam o empreendimento da forma mais familiar possível. Chego lá em um fim de tarde e não preciso preencher qualquer ficha. E eu, com as preocupações de paulistano em férias, tive todo o cuidado de ligar antes para reservar e, quem sabe, fazer aquele famoso depósito para garantir a vaga. “Que dia o senhor chega?”, pergunta uma voz feminina, ao que respondi “Domingo a tarde”, seguido de um simples “Ah, tá bom!” e fim de papo. A cidade é próxima de Passos (MG) e vizinha da Serra da Canastra, lugar onde nasce o “Velho Chico”. Improvisei esta viagem enquanto estava visitando um grande amigo meu, o Silas, de Ribeirão Preto. Um comunista “full-time”, sempre indignado com as injustiças sociais, mas com a simpatia de mineiro bebedor de cachaça, comedor de queijo e amante do cigarro de palha. Nada a ver com os sisudos comunas que antigamente tinham o espírito guerreiro (o que está nesta versão mineira-mateira do meu amigo) e hoje parecem um tanto sem graças e burocráticos. Fez o doutorado na ECA na época em que eu era pesquisador do Celacc e com a mesma orientadora minha, a grande Nazareth. Foi aluno de outro contemporâneo meu de tempos de pós, o Bastião.

Como um bom filho de Oxóssi, Silas é um mateiro típico – por isto, a revolução passa, para ele, por um tiro certeiro no meio do mato com uma cabaça de cachaça a tiracolo e um facão na cintura. Foi assim que ele chegou, certo dia, no Orunmilá acreditando ser filho de Xangô – pai Paulo de Logunedé riu-se a valer; “que raio de Xangô é este com faca na cintura e cabaça pendurada?” até ser confirmado o seu verdadeiro orixá pelos búzios de mãe Neide de Oyiá. Isto aconteceu há muito tempo e ele me contou entre goles de cerveja na varanda da casa dele em Ribeirão Preto sob os olhares meigos de sua esposa Regina e sua linda filha Analuna.

Mas voltando a São Sebastião do Glória. Quando cheguei, pedi para preencher a ficha e a mulher que me recepcionou, a Maria, disse que não precisava, “a ficha acabou!”. O dia foi para descanso e à noite saí para comer alguma coisa na cidade. Um lugar chamado Emporio Grill servia comida e parecia bem receptivo. Um prato chamou-me a atenção: era o sanduíche de filé a moda com tudo. Conteúdo: filé mignon, frango, calabresa, salsicha, pimentão, queijo, palmito, ervilha e não sei mais o quê. Era tanta coisa misturada que parecia aqueles dias que você chega em casa e só encontra potinhos com restinhos na geladeira. A brutal fome faz você inventar um prato com tudo que tinha e colocar catchup em cima para dar alguma coisa de gosto, pois a mistura é tanta que é difícil perceber exatamente o que você está comendo.

No dia seguinte, logo após o café, Paulinho, marido de Maria, veio me dar umas dicas de passeio. Falou de uma sequência de cachoeiras ao norte da cidade, pegando uma estradinha de terra e logo após passar uma ponte virar a esquerda. Descobri o real significado de “logo após” para mineiro mateiro: é BEM depois. Paulinho disse que as cachoeiras são boas para curar ressaca. “Quando eu bebia muita cachaça, era só entrar na água que ela passava rapidinho”.

Ao conhecer a cachoeira, fiquei mpressionado com a dificuldade da trilha – íngreme, distante e cheia de pedras soltas que, ao menor descuido, podem te levar lá para baixo. Impressionado não com a trilha em si mas em como um cachaçado conseguiria descer aquilo. Lá perto ficava uma outra pousada, a do Eninho, onde almoçamos fartamente. A fome era muita depois daquela aventura da trilha. Por 18 contos por cabeça, come-se a vontade – arroz, feijão, carcaça, pé e pescoço de frango cozido na própria gordura do frango, carne de panela, purê de abóbora, um tipo de palmito (que tem outro nome que não me lembro agora) e salada de tomate. A pimentinha não podia faltar e, claro, a cerveja gelada e a cachaça de alambique posta em uma garrafa PET de Coca Cola. Paulinho disse que Eninho, antigamente, bebia muito e o médico o proibiu de continuar na manguaça. A mulher, claro, o controlou. Mas o mineiro era esperto e escondeu garrafas de pinga nos cupins no pasto. Ia tocar a boiada e aproveitava para tomar “uma”. Até que um dia excedeu-se na dose, chegou bêbado em casa e tomou uma bronca da mulher. Não sei se hoje continua bebendo, mas pareceu-me sóbrio as três da tarde quando almoçava.

Depois de muito comer aquela deliciosa comida de panelão, deitei embaixo da sombra de uma árvore. Certo momento, um mugido. Um boi preto entra pela porteira e vai direto para o pasto. Os mugidos assustam muita gente, até mesmo uma mulher de Piumhi – cidade próxima – que conheci na cachoeira e indicou a pousada do Eninho. Aliás, os bois parecem ter uma relação de igualdade com os seres humanos naquele pedaço do Brasil. Andar nas estradas de terra por ali é acompanhar os bois na beira da estrada como pedestres ilustres. Sempre me falavam que quando o boi empaca no meio da estrada, não tem cristo que o tire de lá. Não sei os bois de lá são ensinados ou acostumaram-se com os carros, pois saem espontaneamente quando os carros se aproximam. São mais cuidadosos que muito pedestre em São Paulo. Eram quase quatro da tarde, quando uma das mulheres da cozinha disse que ia preparar mais comida pois estava chegando mais uma leva de cavaleiros, umas 25 pessoas. A minha saída de lá coincidiu com a chegada desta nova turma. E dá-lhe mais panelão. A pressa de ir embora pois não queria pegar a estrada de terra à noite não me impediu de catar algumas paçocas e doces de leite que estavam na mesa ao lado do bule de café (tipo mineiro, superdoce, um horror!). No outro dia, Paulinho nos indicou um lugar chamado “Paraíso perdido”. Disse ele “é só pegar uma estrada aqui do lado e logo depois da ponte de concreto, seguir em frente até chegar a MG-050 e seguir em direção a Furnas”. Traduzindo, são TREZE quilômetros de terra até chegar a estrada principal de asfalto. E depois de andar mais três quilômetros de asfalto, mais estrada de terra até chegar ao tal paraíso perdido. Um lugar muito bonito, um rio que vai descendo uma sequencia de cascatas de pedra formando várias cachoeiras e piscinas naturais. Água geladíssima, como todas as do lugar. Por ser uma terça feira, não tinha quase ninguém, a não ser um grupo de quatro meninos, naquela idade da bobeira em que um quer se mostrar mais engraçadinho que o outro e uma moça, na fase “vejam todos como sou gostosinha”.

A despeito das placas avisando do perigo – os poços têm mais de 18 metros de profundidade e tem muitas pedras soltas naquelas cascatas – os meninos brincaram de escorregar pelas pedras e, depois subiram com a moça para mais adiante. Resolvi ficar por lá mesmo por precaução e por cansaço pois a trilha do dia anterior tinha acabado comigo. Almocei um pouco mais adiante, em um restaurante a beira da estrada, perto do lago de Furnas, um lugar belíssimo. Pretendia fazer um passeio de barco pelo lago, mas só foi possível fazer isto no dia seguinte. Um dos caras do restaurante, acho que o gerente, disse que tinha morado em São Paulo durante muito tempo mas há mais de 20 anos resolveu estabelecer –se por lá. Morava no Edifício Copan, bem no centrão de São Paulo, e foi para a beira da represa de Furnas. Valeu a pena? Também disse a mesma coisa a respeito das cachoeiras: “Eu e minha companheira sempre gostamos da cachoeira. Sabe quem é minha companheira? A cachaça.”

Marquei o passeio de barco para o dia seguinte. Estava um dia meio frio, fechei a conta do hotel que estava hospedado e fui até o local. Procurei ser pontual, marquei as 10h, cheguei cinco minutos antes. Mas o restante do grupo deu cano, o cara da lancha acabou tendo que amargar um prejuízo, pois teria que levar só duas pessoas. Enquanto esperava, conversava com um dos “lancheiros” e ele me disse que era proprietário de dois barcos, além de vários ranchos na cidade de Capitólio, seis quilômetros adiante de onde estávamos, a beira do rio. Falou que lá era um lugar bom para arrumar serviço. “Em Piumhí, dizia ele, o lugar é ruim, só tem a roça para trabalhar, plantação de milho e café. As olarias faliram. Lá em Capitólio, não, tem muita gente com grana e sempre pinta serviço nas casas dos caras.” Tipo de serviço, perguntei, ele respondeu: “Jardineiro, caseiro. Lá tem até uma disputa para pegar o serviço do outro. De madrugada, o sujeito joga veneno no jardim do outro, o gramado morre e o jardineiro é mandado embora. Aí, o cara pega o serviço”, diz ele, resumindo bem o que significa a tal empregabilidade em tempos neoliberais aqui do lado de baixo do Equador onde não existe pecado. Um bom conselho para ser incluído nas publicações de auto-ajuda, Como ser feliz, Como vencer na vida, etc, basta colocar junto um saquinho com veneno para grama.

A paisagem é belíssima, canyons, lagoas, piscinas naturais, cascatas, água limpíssima que varia entre o tom verde e azul dependendo do raio solar. É dali que sai parte significativa da energia elétrica que abastece a região Sudeste. Não sei quais foram as conseqüências sociais e ambientais da construção daquela usina de Furnas, mas a paisagem é bem bonita. São João Batista da Glória está para sediar uma festa do peão, estas coisas que acho pavorosas que acontecem no interior, a mais famosa é em Barretos. Paulinho me assegurou que, ao contrário da de Barretos, aquela ali não tem confusão. “Uma semana antes de acontecer a festa, diz ele, a polícia ‘guarda’ todos os valentões e brigadores da cidade. A coisa fica calma. Eles só saem depois da festa”. Acredito que aí o pessoal saiba se virar com os valentões. Ou então é preciso mostrar serviço quando tem gente de fora visitando. Como o pessoal da área de turismo, é preciso demonstrar que quer receber bem o forasteiro, mesmo que isto custe alguns valores. O lancheiro disse que precisava aprender um pouco de inglês para receber os estrangeiros que vem aqui em 2014 na Copa do Mundo. Disse: “Quando um brasileiro vai visitar um outro país tem que aprender a língua de lá. Por que quando eles vêm visitar aqui não fazem o mesmo e a gente é que tem que aprender a língua deles?” O lancheiro pensou e disse, “É, você tem razão, os caras podiam aprender, né?”. Espero que esta semente de desconfiança sobreviva até alguma mensagem imbecil, tipo o anúncio de uma escola de inglês que vincula saber este idioma a poder conquistar uma namorada.

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