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Debate sobre a participação institucional do movimento negro no I Seminário Quilombação de 2014


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A perua, a vaca e o filho da puta


Duas mulheres distantes no espaço, tempo e, principalmente, nas preferências ideológicas. Ambas bem formadas, qualificadas intelectualmente e ocupantes de cargos importantes.

A primeira foi chamada, por diversas vezes, de “perua”. Seu nome: Suely Vilela, professora titular da Faculdade de Farmácia do campus Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Foi a primeira e, até agora, única mulher a ser reitora da maior universidade da América Latina. Foi em 2005.

A reitoria da USP é designada pelo governo estadual de São Paulo a partir de uma lista tríplice elaborada por um colégio eleitoral, em que determinadas categorias – como a dos professores titulares – tem maior peso. Assim, o escopo de pessoas que chegam ou pretendem chegar a este topo é muito restrito. Suely Vilela não era favorita para o cargo naquele momento. E as explicações para que ela chegasse a este cargo foram várias, inclusive fofocas a respeito da sua vida íntima.

Durante a sua gestão, enfrentou uma grande crise com os alunos que ocuparam a reitoria durante uma greve em 2008. Nas negociações salariais com as entidades representativas dos funcionários e docentes, a reitora da USP cedeu o lugar de liderança das negociações para o reitor da Unicamp. Fato único, o reitor da USP, por ser a maior universidade, costuma sempre liderar as negociações.

A revista Veja, insuspeita, traçou um perfil de “mãezona” da reitora na relação com os alunos ocupantes da reitoria, e ressalta a sua preferência por músicas românticas. Um romantismo incapaz de tratar aquele momento de crise.

Eu disse no início que Vilela é professora titular da USP. Portanto, uma pesquisadora de renome na sua área. Apareceu algo que se refere a sua carreira intelectual, ao fim do seu mandato: um artigo – na qual ela é uma das co-autoras – em que partes dele foram considerados plágio. A primeira e até agora única mulher a ser reitora da USP termina o seu mandato.

E foi chamada de perua pelos manifestantes e críticos.

A segunda é a atual presidenta Dilma Roussef. Que, de cara, ao contrário de Vilela, sequer teve o direito de ter reconhecida a sua identidade de gênero no seu cargo pelos meios de comunicação hegemônicos. Vilela era chamada de “reitora” e Roussef ainda é tratada de “presidente”.

Se Vilela era perua, Dilma é a vaca para os manifestantes favoráveis ao seu impeachment. Se Vilela era romântica demais para exercer o cargo, Dilma é troglodita, inábil e sem condições de governar o país.

Enfrentou na eleição um candidato que tem o hábito de apontar o dedo para as mulheres (Luciana Genro, do PSOL, chamou a atenção disto em um debate eleitoral). Adesivos grosseiros e machistas são distribuídos.

Em determinado momento, até mesmo alguns apoiadores da sua candidatura questionam a sua capacidade de disputar a reeleição. Querem a volta do lider-mor, Lula. Até alguns empresários aventam esta hipótese.

Os comedidos comentaristas da “grande imprensa” (sic) apressam a dizer, desde o início, que o seu governo “acabou”. O prócere da Fiesp faz campanha pela sua renúncia.

Como última cartada, a presidenta chama o líder-mor do seu partido para o ministério. Motivo: recompor a base aliada, tentar tirar o governo da encrenca política que se meteu, buscar criar pontes de negociação. Coisa que ela não tem habilidade. Mulher inflexível.

Suely, mulher muito romântica, sem pulso firme.

Dilma, mulher inflexível, inábil.

Depois de Suely, um homem a sucedeu com pulso firme.

Dentro do gestão Dilma, um homem vem para tentar “salvar” o seu governo.

Mas estes homens também são xingados pelos seus opositores. São? Xingam-nos de “filhos da puta” – ou seja, as suas mães, outras mulheres.

E ainda dizem que o machismo não existe…

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Racismo não se supera apenas com a educação


O texto abaixo é produto da minha exposição no Seminário “Negro Plural”, organizado pelo Instituto Luiz Gama e a CUT (Central Única dos Trabalhadores) em 29 de novembro, no SESC/Vila Mariana. O tema da mesa era racismo e educação com foco na lei 10639 e as cotas raciais nas universidades.

Há uma tendência forte no movimento anti-racista de considerar que a superação do racismo se dá pela educação. Não é a toa que duas bandeiras fortes do movimento atual referem-se á educação: a Lei 10639 que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação ao instituir a temática da história da África e da cultura afrobrasileira nos conteúdos curriculares do ensino básico e a implementação das cotas raciais nos processos seletivos das universidades públicas.

Eu procuro entender o problema do racismo pelo viés do marxismo. Uma das ideias mais interessantes do pensamento marxista é que os homens estabelecem relações concretas uns com os outros com base na produção material. O racismo no Brasil origina-se do fato do capitalismo por aqui ter se construído com base na acumulação primitiva de riquezas obtida pelo modo de produção chamado pelo pensador Jacob Gorender, de escravismo colonial. O “escravismo colonial” foi muito bem conceituado por Gorender – ele sustentou o mercantilismo na Europa durante muito tempo, possibilitou em certo momento, recursos para inversão em modos de produção mais avançados e, após a proibição do tráfico de escravos em 1850 (lei Eusébio de Queiroz), os recursos que eram destinados ao tráfico foram direcionados para investimentos em sistemas produtivos, possibilitando aí, a transição negociada do escravismo colonial para o capitalismo.

Reforço esta ideia da “transição” – não houve ruptura com a ordem anterior e sim uma transição. A classe dominante brasileira é descendente dos escravocratas. Por isto, elementos construídos nas relações sociais do escravismo se transfiguram para o capitalismo. A “tolerância opressiva” de que fala Darcy Ribeiro – tolerar o outro para poder oprimi-lo – serviu como mecanismo legitimador da escravização e, atualmente, para a superexploração da mão de obra assalariada. Negros são tolerados desde que em seu “devido lugar”.

Por isto, o racismo no Brasil se manifesta em construção de lugares permitidos para brancos e negros. A escola, como instituição social, se manifesta como um espaço em que estas ideias se reproduzem. O sociólogo Pierre Bourdieu elaborou o conceito de “capital cultural” para definir as competências e habilidades exigidas e universalizadas pela instituição escola como mecanismos de violência simbólica, a medida que exige um “enquadramento” daqueles que desejam ser bem sucedidos neste espaço.

É com base nestas referências que entendo que a luta pela lei 10639 e pelas cotas são instrumentos que explicitam conflitos dentro da instituição educacional. A resistência à implementação ou mesmo a distorção dos mesmos se dá não por uma “deformação” ou “incompreensão” dos agentes envolvidos na instituição, mas sim porque uma concepção mais radical dos significados destas normas implica em questionar os sistemas de “violência simbólica” inseridos na instituição escolar.

É importante lembrar que a lei 10639 altera a LDB, portanto os conteúdos ali previstos não são “periféricos” mas tem o mesmo status de qualquer outro conteúdo obrigatório do currículo, como Português ou Matemática. E também que ele é obrigatório para todas as escolas do ensino básico, mesmo aquelas em que não há negros ou que atenda uma elite branca. Qual a importância desta reflexão? É que ela aponta que os conteúdos de História da África e cultura afrobrasileira passam a integrar o conjunto de competências e habilidades exigidas na instituição escolar, reposicionando a figura do africano e do afrodescendente da periferia para o centro simbólico.

No caso das cotas nas universidades, a presença de mais e mais negros e negras nas universidades conflita com as imagens estabelecidas de que os lugares negros são os subalternos – as periferias, os trabalhos precarizados, a exclusão. Transformando um espaço “monocromático” em “multicolorido”, conflita com as imagens simbólicas de lugares consolidados de negros e brancos.

Ora, a medida que se reposiciona estes lugares simbólicos de negros, há um deslocamento também da posição do que é ser branco. O ser branco se consolida como o lugar da “universalização” da condição humana (por isto, muitos brancos não se assumem como “grupo étnico” e se definem como “humanos”, “mestiços”, “misturados” e outras definições que apagam a ideia de ocuparem um lugar hegemônico construído pela subalternização de outro). A condição social do ser branco se configura a partir de “privilégios adquiridos racialmente” – como, por exemplo, contar sempre com a possibilidade de existir uma mulher negra pobre para ser explorada como trabalhadora doméstica ou ainda ser escolhido em uma seleção visual de trabalho em que concorre com uma pessoa negra – que se transfigura em um leque maior de oportunidades. A medida que a luta contra o racismo avança em todos os sentidos, estes privilégios vão sendo questionados e, por isto, a gritaria começa desmontando todo o discurso do mito da democracia racial brasileira.

Diante disto, o racismo não se resolve meramente com a educação, até porque a escola, como instituição social o reproduz. A luta pelas cotas e pela lei 10639 tem uma função importante de abrir frentes de embate dentro da instituição escolar, porém sem criar a ilusão de que a mera implantação resolverá o problema das relações étnicas no Brasil.

A escola é um espaço de conflitos – demonstrado, nitidamente, quando se ouve um professor da USP afirmar, em uma reunião, que “a implantação das cotas poderia aumentar a violência no campus.”

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Comunicação e o triplo poder


Participei do VII Simpósio Brasileiro de Psicologia Política de 15 a 18 de novembro passado em São Francisco de Paula (RS). O evento foi bastante interessante pois é um dos poucos encontros acadêmicos em que se pode discutir criticamente as instituições sociais existentes, bem como os compromissos do pensamento acadêmico com a mudança da sociedade.

A convite da organização, apresentei um texto sobre comunicação de massa, poder e transformação social. O texto está no arquivo anexo.

O triplo poder

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EUA: uma sociedade que se regozija com cenas de destruição de vidas humanas


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Lisa Parks, professora da Universidade de Santa Barbara

Os EUA estão atacando uma região do Paquistão dominada pelo Taleban desde 2004 por aviões teleguiados – os chamados “drones”. Esta guerra secreta somente foi denunciada em 2008 e, desde então, inúmeros protestos são realizados ao redor do mundo reivindicado o fim dos ataques.

Lisa Parks, professora do departamento de estudos de mídia da Universidade de Santa Bárbara – Califórnia, vem estudando estes fatos e, particularmente ,os impactos sócio-midiáticos. Os seus estudos renderam um livro chamado “Coverage”; Nele, Parks analisa como a sociedade estadunidense tem reagido às imagens destes ataques que estáo sendo disseminadas pela mídia, bem como os impactos nos povos atingidos. A professora apresentou alguns resultados das suas pesquisas em palestra proferida no dia 27 de setembro na Escola de Comunicações e Artes da USP.

Para Parks, esta guerra consolida três processos. O primeiro, é o aspecto vertical do biopoder (conceito foucaultiano) – as ações dos dominantes  vem de cima, do céu, as imagens feitas dos ataques a partir dos drones dão uma perspectiva de cima, transformando os de baixo em meros “alvos”. O segundo, é a consolidação da idéia – entre os dominados – de potenciais alvos, de incertezas, de alvos de especulação, são inimigos e culpados porque estão próximos territorialmente a quem se coloca como inimigo, independente de pertencer ou não aos grupos “terroristas”. E, terceiro, a construção de uma nova classe dominada – a classe das pessoas-alvo.

Os ataques da CIA já vitimaram aproximadamente 3 mil pessoas, inclusive crianças, além de inúmeros feridos e mutilados.

Drone media

Depois de ser denunciada, o esforço da CIA se deslocou para legitimar junto à opinião pública norte-americana a importância deste tipo de ação. Os argumentos da CIA são de que se trata de um tipo de guerra limpa, cirúrgica, sem baixas ou desgastes para as tropas norte-americanas. O militar dos EUA “combate” nas salas informatizadas dentro do próprio território estadunidense no seu horário de expediente e depois vai para a sua casa.

Parks analisou a repercussão das imagens dos ataques feitas a partir dos drones. Ela classificou os comentarios postos pelos internautas nas imagens em dois grupos: aqueles que vêem as imagens como entretenimento e chegam a expressar um prazer erótico-sádico (aerial snuff) e os que as vêem como fontes de informação e expressam um pensamento crítico. Parks afirmou que aproximadamente 60% dos comentários podem ser classificados na primeira categoria e ela credita isso a uma série de veteranos de guerra que se reencontram simbolicamente em uma situação de conflito e destruição.

No vídeo abaixo, o presidente Barack Obama faz piada do caso dos drones e os protestos no mundo, no qual é acompanhado pelos risos da platéia. Ressalto que os ataques por drones foram iniciados pelo governo Bush e ampliados na gestão Obama – que, embora tenha diferenças significativas na política interna, praticamente nada mudou na política externa, mantendo os mesmos falcões no comando.

Estou lendo uma obra do grande professor Carlos Nelson Coutinho – “De Rosseau a Gramsci” (Editora Boitempo) – e ele afirma que Rosseau considerava que “as determnações essenciais do homem enquanto homem (inclusive o pensamento racional, a linguagem articulada e o sentimento moral) não são atributos naturais, pré-sociais, mas (…) resultam precisamente do processo de socialização”.

Que tipo de socialização se faz nos EUA em que assistir comodamente da sua poltrona cenas de assassinatos de pessoas indefesas vira forma de prazer e entretenimento? Uma sociedade em que um caso como este é tratado como piada pelo presidente da República, cujo opositor faz campanha atacando as pessoas pobres por necessitarem dos benefícios sociais do Poder Público. É uma socialização que forma certos indivíduos que invadem escolas e saem atirando a esmo.

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