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Pernoites em um hospital


Detesto hospital. A cor branca dos uniformes dos funcionários me dá alergia. Assim como aquele ambiente asséptico. Mas tem hora que não tem o que fazer. E não consegui ficar invicto de internações até os sessenta anos, como fazia parte dos meus planos. Uma pedra na vesícula obrigou-me a fazer uma cirurgia e, de quebra, aos 51 anos de idade, ter a minha primeira internação hospitalar.

A primeira sensação horrível de ficar internado é a de estar numa prisão. As refeições vem nas horas pré-determinadas, as comidas são decididas por outros e há todo um esquema de segurança para não deixar você sair. O enfermeiro diz, logo na minha chegada para a minha acompanhante: “Leve toda a roupa dele, só fica objetos de uso pessoal, escova de dentes, pasta, sabonete. Quando tiver alta, traz tudo. Se quiser deixar o celular aqui, pode (ufa, não era uma prisão!), mas não nos responsabilizamos (como é de costume, ninguém se responsabiliza por nada, existe o racismo, o machismo, a homofobia, a violência, a miserabilidade, os problemas sociais, o trânsito caótico etc, etc, mas ninguém não tem nada a ver com isso).”

Vesti um pijama azul clarinho de algodão grosso, maior calor, batendo os 34 graus, quarto sem ventilação. Lemas enormes do hospital na camisa, nas pernas das calças, e aquela aparência doentia que você fica no hospital, independente de estar doente, unifica todo mundo. Interessante como certos ambientes são tão autoritários que despersonalizam as pessoas e todos ficam unificados como pacientes.

No meu quarto estavam eu, um senhor que trabalhava com obras com problemas de infecção na virilha, outro com hérnia e um quarto que tinha feito uma operação no apêndice e tinha dado umas complicações. Duas salas de estar, uma com uma televisão ligada na Globo (sempre ela!) e outra que só pegava o canal do pastor Valdomiro. Escolha difícil. A terceira opção era ficar no forno do quarto. Levei um livro, do meu amigo Francisco Bicudo, de crônicas da Copa do Mundo no Brasil. Eram 35 crônicas sobre o evento esportivo assistido praticamente na íntegra por este grande jornalista e professor com o qual trabalhei na Universidade Anhembi Morumbi. Assisti a palestra que ele fez na ECA dois dias antes e foi muito legal. Primeiro porque ele é torcedor do Santos. Segundo, porque é um ardoroso defensor do futebol-arte e de uma dimensão que é singular no esporte futebol que é paixão, a emoção e a imprevisibilidade, o que faz algo muito maior que os tecnicismos burocráticos de técnicos, comentaristas e “managers”.

A minha cirurgia seria no dia seguinte. Não consegui dormir direito, não por ansiedade, mas porque estava muito quente e um dos meus colegas de quarto não passou bem e teve que ser medicado pela enfermeira. A cada entrada da enfermagem, mesmo de madrugada, eles simplesmente acendiam todas as luzes do quarto – e eu, com a desvantagem de ter olhos claros, fico extremamente incomodado com claridade. Olhei no relógio, eram três e meia da manhã, lá fora olhava o campus desolado da USP, vazio quando não há atividades letivas. Uma estrela no céu claro indicava ser ainda madrugada. Demorei a voltar a dormir, e logo, fui acordado pela enfermeira – eram 5 e meia. “Bom dia, senhor Dennis, nós vamos depilar sua barriga e depois o senhor toma banho com este sabonete antisséptico e não lave a cabeça. Vista este avental e mantenha o emblema do hospital na frente, amarre-o atrás. Entendeu?” Ainda com sono, balancei a cabeça afirmativamente.

Depois de seguir as instruções da enfermeira, fui posto na maca e levado ao centro cirúrgico. A enfermeira que me levava, contava que estava trabalhando há 32 anos no hospital e estava em vias de se aposentar. “Chegou a hora de parar. Agradeço muito aqui por ter me dado muitas oportunidades, criei os meus filhos e agora vou descansar”. O pessoal da enfermagem é muito simpático, atenciosos, fico imaginando a paciência que eles tem que ter para aguentar gente chata – e sei que existem muitos assim!

“O senhor quer um cobertor? Lá no centro cirúrgico é muito frio por causa do ar condicionado”. Sem esperar pela minha resposta ela me cobriu e me deixou em um ante-sala do centro cirúrgico. Uma certa algazarra no corredor: eram alunos residentes do curso de Medicina que estavam chegando e iam acompanhar cirurgias. Um grupo de três alunos chegou perto de mim e se apresentaram “meu nome é fulano, sou residente I (ou II) do curso de Medicina, a gente pode fazer umas perguntas para o senhor?” E um perguntou, o que o senhor tem, desde quando, teve problemas no intestino, o xixi e o cocô estão normais, teve febre, posso examinar o seu abomen e apertavam a minha barriga. Veio o segundo e fez a mesma coisa. E o terceiro, o quarto… Fiquei pensando quando eu peço para os alunos fazerem trabalhos de entrevistas com moradores da São Remo para o jornal laboratório ou mandar entrevistar uma pessoa famosa como exercício, como nós professores instigamos os alunos a chatearem os outros. Olhei para os meninos, todos alvinhos, caras de meninos bem cuidados e bem tratados, e pensei “porra, por que não fazem este trabalho em grupo?”, mas só pensei.

Veio uma enfermeira e disse que tinha que aguardar mais um pouco porque não tinha anestesista disponível. E o tempo passou, e passou e só lá pelas 11 horas, fui levado ao centro cirúrgico. Sensação estranha ver aquelas luzes brancas do teto do corredor passando por sua cabeça. Parece cena de filme. Já na sala de operações, o anestesista me cumprimentou. Enquanto ele ia aplicando as drogas para anestesiar, lembro-me da última fala dele, para o residente que acompanhava a operação: tem que tomar cuidado, se errar a dose desta substância, o coração pode parar de funcionar. Legal ouvir isto antes da operação, o negócio é dormir logo e seja o que Deus quiser.

Acordei e olhei para o relógio da parede, eram umas quatro e meia da tarde. Estava em uma outra sala, junto com outros pacientes que tinham sido operados. Estava grogue ainda. Depois de um tempo, um enfermeiro veio me dizer que foi tudo bem, perguntou se eu estava bem e que eu iria para o quarto. As coisas no hospital tem um tempo diferente. Quando eles falam que você vai já para um lugar, este já significa, pelo menos, meia hora. Isto antes de vir um outro e dizer a mesma coisa e demorar a mesma meia hora. Enfim, só pelas cinco e meia subi para o quarto. Estava com soro espetado na minha mão. Curativos na minha barriga que foram tirados mais a noite por outro enfermeiro e que pediu para tomar novo banho. Disse que eu já ia voltar a comer e ia ter alta.

Mas é o tempo de hospital. Voltei a comer só no dia seguinte na hora do almoço. E tive alta somente as sete horas da noite do dia seguinte. Neste tempo, conheci o seu Firmino, um senhor idoso, meio bravo, mas com filhos maravilhosos que se revezavam no cuidado e carinho com o pai. Teimoso, ele não comia, queria ir para casa e dormia de ponta cabeça. No meu lado, seu Valmir, o cara das obras, ansioso em querer sair dali, estava uma semana, recebeu a visita da sua esposa por uma hora. Preocupava-o ficar parado, pois “se eu não trabalho, não recebo”, dizia ele. No leito na minha frente, o seu Filipe não fez a cirurgia porque não tinha anestesista, foi liberado e sua filha foi buscá-lo. Ao me ver, ela disse;”você foi meu professor!” Conversando, descobri que ela fez um dos cursos do Celacc/USP que coordeno.

Já tinha acabado de ler o livro do Bicudo. Não tinha mais o que fazer por lá. Ao sair de alta, olhei com certo ar de tristeza para o seu Valmir, que ainda ficou por lá – todos no quarto saíram e ele ficou sozinho por lá.

Nestas horas a gente vê como a gente é frágil. Como o Freud disse em “O mal estar da civilização”, um dos mal estares do ser humano reside na fragilidade do seu próprio corpo. E é nestas horas que qualquer frágil destes vestido com a capa da arrogancia fica a mercê do cuidado de uma enfermeira simples que, certamente, ao passar na rua, sequer olha na sua cara. That’s the life!

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Bróder


O bróder era uma pessoa de bom coração. Bom papo, amigo, pessoa daquelas que não faz mal a ninguém. Curte rock clássico, em especial Rolling Stones, samba, black music dos anos 1970. Um bróder mesmo. Mas mesmo assim a insolência de toga achou, por bem, isolá-lo do mundo. Recolhê-lo como se fosse um perigo. Perigo para quem? Para a própria insolência de toga. Também a insolência de toga não tinha culpa, apenas era pau mandada da máquina opressiva de que fala Foucault – aquela mesma máquina de punir que o soberano tinha a hombridade de assumir e que insolentes de toga e artífices tecnicistas de paletó fazem parte do “casting”.

Duas horas gastei no domingo para ver o bróder. Estava dia bonito, ligeiramente frio, mas com sol. Conversamos andando pelo gramado do campo. Assunto: quem era melhor, Rolling Stones ou Beatles, Mick Jagger ou John Lennon? Com a autoridade de roqueiro clássico, bróder cravou seco em Jagger, sem deixar de passar a chance de sacanear: “ele até conseguiu ter um filho com a chata da luciana gimenez!” Mas o debate teve qualidade: Jagger, disse bróder, era um cara que estudava muito, tinha incursões no blues e no jazz e foi amigo do Peter Tosh. Mas Lennon, contra-argumentei, foi o símbolo do protesto da contracultura, não se pode esquecer isto, e bróder, quase como sempre, concordou comigo.

Corte para futebol. Neymar é um craque, concordamos. Santistas de carteirinha, eu e ele, criticamos o atual time e, principalmente, os atuais dirigentes do alvinegro praiano. Lembrei a idéia do meu cunhado-grande amigo: uma puta empresa dirigida por donos de padaria. Bróder concordou e declarou preferir a gestão anterior, pois “pelo menos eram safados explícitos e o time ganhou vários títulos”. Ainda no futebol, seleção brasileira vai ganhar na porrada e no entusiasmo e não porque tem time, disse bróder, e eu concordei e ainda disse que torceria para a seleção mais para consagrar Neymar e Paulinho, e também por questões políticas. “Já imaginou o Brasil de volta nas mãos da tucanada”, bróder olhou pra cima e concordou.

Andamos pelo campo de futebol. Bróder mostrava, lá longe, a serra que fazia divisa com outro estado. Perguntou da minha viagem aos Estados Unidos, e lembramos do questionário engraçado que a embaixada aplica para ter o visto. Bróder começou a imitar o falecido Paulo Francis que, em certa ocasião, no Jornal da Globo, disse que “estava comprovado que a idade mental do norte-americano era de 12 anos, pois só isto explica que no filme Rambo um homem sozinho derrota o Vietnã, coisa que o Pentágono inteiro não conseguiu”. Como sempre, no meio do papo de homens, sacanagens rolam, e falamos bem e mal de determinadas mulheres (dependendo dos seus atributos físicos).

O papo rola por outras coisas do cotidiano, família, tudo regado a uma caneca de café ruim e pão seco. Mas toca o sinal e é hora da gente se abraçar e despedir. Tarde legal, bonita, sol, passeio no gramado e papo ponta firme. O café ruim foi tão bom quanto a cerveja Original gelada que a gente sempre toma no Rei das Batidas. Mas em breve o broder vai estar do lado de cá, onde merece, pois acredito que até as insolências de toga tem consciência. Enquanto isto, quando puder, estarei lá para poder dar um abraço e bater um papo – pois isto não tem insolências que consigam tirar.

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Afeto


Afeto é deixar-se afetar por outro. Para isto, é preciso estar aberto para que a relação com o outro possa te transformar. É o ápice da relação mais profunda. O contrário do afeto é a relação instrumental. O outro é objeto e serve apenas e tão somente para usufruir.

Afeiçoar-se é tipicamente humano. Não afeiçoar-se é desumano. A objetificação do outro é, assim, o ápice da desumanidade. Crimes passionais são desumanos porque não são produtos de afetos mas sim de instrumentalização do outro.

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Olhares poéticos e líricos

Eclipse não oculto


Sidnei saiu voando do trabalho. Estava terminando uns relatórios de atividades prestadas a uns clientes, aquelas coisas de consultoria empresarial, como administrar fluxos de comunicação interna, pensar nos “stacke-holders”, e coisa assim. Ex-militante comunista, não acreditava nada daquilo.

Aliás, nos seus primórdios, quando montou sua pequena empresa de consultoria empresarial vivia uma crise de consciência. Aprendeu e se convenceu pelas “cartilhas do partido” que tudo aquilo eram ferramentas de dominação ideológica. Resistiu a entrar neste ramo, mas o acúmulo de contas a pagar e a demissão do emprego que estava não deixou muitas opções. Começou timidamente, escondendo dos outros o que fazia até que, quando percebeu que a militância que fazia era pura ilusão, desencanou. Afinal, era uma forma honesta de ganhar a vida.

Mas se não tinha mais crise de consciência, tampouco acreditava naquilo. E isto ia contra todos os manuais de auto-ajuda e de venda que dizem que você só consegue vender um serviço ou produto se acredita nele. Talvez a postura cética com relação àquilo o transformava em uma pessoa que absorvia as tecnicalidades de forma extremamente funcional – e isto funcionava.

Ex-militante mas não ex-amigo. Manteve relações de amizade com várias pessoas do partido, algumas delas com muita intimidade. Foi assim que recebeu a ligação de uma antiga “camarada” que estava morando fora de São Paulo. Disse ela que estava na cidade e gostaria de reencontrá-lo.

Pensou – tiveram um relacionamento amoroso durante um tempo. Relacionamento transgressivo: ela era casada e ele, também. Em várias ocasiões em que se encontraram, rolava a química – eram gargalhadas, lágrimas, abraços, beijos sensuais e, ao contrário do eclipe oculto do Caetano, na hora da cama tudo pintou direito. E isto durou muito tempo justamente por ser um amor transgressivo.

Vânia era o nome dela. Sidnei não sabia porquê ainda tinha tesão por ela, nunca foi tão bonita e, para ser franco, nem tão agradável, tinha um papo meio chato simplesmente por ter toda a sua vida centrada na militância: os seus amigos, familiares, sua rede de relacionamento era da militância partidária, até o seu emprego pois trabalhava dentro da organização.

Passaram-se mais de dez anos deste o último encontro e ao falar com ela por apenas cinco minutos no telefone, sentiu que pouco tinha mudado. Nem mesmo o tesão inexplicável que o fez topar encontrar com ela naquela noite, mesmo sabendo que o dia de trabalho seria intenso.

Saiu correndo para encontrá-la próximo a zona norte, onde estava rolando um destes eventos de movimentos sociais organizados – congressos, seminários, conferências, sei lá o nome. Parou o carro, ligou para o celular dela e ouviu “espere um instante, estou indo ao teu encontro”, Aguardou impaciente por cinco minutos, não estava a fim de topar com velhos “camaradas” que sempre te cobram – explícita ou implicitamente – quando deixa estes espaços e vai cuidar da sua vida.

Vânia chegou paramentada de militante, com camisetas estampadas de campanhas, bottons, adesivos, como uma autêntica estudante revolucionária dos anos 1960, porém com idade para ser mãe de uma destas. Sorrindo, como sempre, chegou, abraçou-o e o beijou na boca. Querendo sair daquele ambiente, Sidnei abriu a porta do carro para ela e saíram.

No percurso, as conversas triviais de sempre – “como está?”, “como foi de viagem?”, “como está fulano?” e por aí vai. Foram a um pequeno restaurante no centro da cidade, onde pediram uma porção de mandioca frita e uma cerveja.

De repente, conta ela a noticia, “estou viúva, meu marido faleceu semana passada”. Várias coisas passaram pela cabeça de Sidnei, “será que agora ela vai querer uma relação séria?” mas recuperou a deselegância egocêntrica para perguntar “o que foi que aconteceu?”. Tranqüilamente, pelo menos era o que transparecia, Vânia contou que o marido estava doente, “o câncer na próstata se disseminou” e que os últimos meses tinham sido um inferno na vida dela. “É, doença em família dá trabalho”, disse Sidnei, mas ela contou que não era isso, era que tinha aparecido uma amante do marido dela que, inclusive, tinha um filho com ele.

Sidnei e Vânia riram juntos da situação, imaginando que enquanto eles estariam transando em certos momentos, o marido de Vânia estava com a amante. “Ela pediu, disse Vânia, para ir ao enterro dele também.” Os dois se olharam e pensaram talvez a mesma maldade: uma boa oportunidade de dar uma paulada na cabeça da amante e mandá-la junto com o cara, ficariam juntos para sempre. Se pensaram, a idéia não saiu na boca de nenhum dos dois, apenas a preocupação expressa por Sidnei de como estariam as crianças.

E papo vai, papo vem, muitas risadas naquela semana de luto de Vânia e de tesão inexplicável de Sidnei, cujo denominador comum foi a saudade sendo devorada pelos goles de cerveja e os bocados de mandioca. Em várias outras oportunidades destes encontros, eles sempre acabavam na cama mas depois de uma hora e meia, Vânia mostrou-se sonolenta e perguntou se ele não se importava em deixá-la no hotel pois queria dormir. O eclipe não estava ocultou e sim explícito, pois também estranhamente Sidnei estava a fim de ir para casa. Ou ainda ficar mais um pouco batendo papo, coisa que não era recomendado por ser dia de semana, horário avançado e mais um copo de cerveja seria arriscado para quem iria dirigir. Tudo isto na verdade era desculpa: estava satisfeito por ter revisto uma amiga, satisfação esta livre dos compromissos partidários ou das obrigações sexuais. Admitir isto para ambos foi como se fosse um grito de libertação.

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Amar-te simplesmente neste momento me basta

Desejar ter você em meus braços, envolvendo cada pedaço do teu corpo no meu

E querer devorar cada pedacinho dele num ritual antropofágico

Reconhecendo que sou pura essência humana quando estou dentro de você

sexo

Olhares poéticos e líricos

Amar basta

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Calçando os caminhos


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É possível olhar o mundo em outra perspectiva. Assusta porque determinadas coisas, de gigantes se transformam em poeira. E outras, de tão pequenas viram enormes e cheias de detalhes – que ficam importantes. As utopias e os sonhos ficam tão próximos e os percalços são fáceis de pular. Basta aproveitar os momentos intensamente sem esquecer a trajetória – ou fazer destes momentos os passos da trajetória que não se resume ao destino que se chega, mas também o caminho.

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Olhares poéticos e líricos

Prisma


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O movimento daquele corpo desafia

Cutuca, me busca e me faz buscar

Desanuvia e evanesce o amor da língua dos anjos das epístolas

Reemerge Eros, livre dos medos de Tanatos, dançante

sob os ritmos sensuais de Oxum formosa

e de Oyiá garbosa

A razão eterna do instrumento envelhecido sólido

se liquefaz

Angústia

Medo da liberdade

Sedução do novo

Desejo de consumo

que satisfaz

mas destrói

Sonho do amor

que constrói

mas desilude

O corpo dança, flui, encanta

e cutuca

e chama

e vem

e foge da mão que acaricia

quando quer aprisionar

Que demonstra a sensualidade da dama

e o romantismo da puta

Que te beija com tesão

e trepa com carinho

O corpo que revela e esconde

fica e deixa

mas te marca enquanto dura.

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