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A perua, a vaca e o filho da puta


Duas mulheres distantes no espaço, tempo e, principalmente, nas preferências ideológicas. Ambas bem formadas, qualificadas intelectualmente e ocupantes de cargos importantes.

A primeira foi chamada, por diversas vezes, de “perua”. Seu nome: Suely Vilela, professora titular da Faculdade de Farmácia do campus Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Foi a primeira e, até agora, única mulher a ser reitora da maior universidade da América Latina. Foi em 2005.

A reitoria da USP é designada pelo governo estadual de São Paulo a partir de uma lista tríplice elaborada por um colégio eleitoral, em que determinadas categorias – como a dos professores titulares – tem maior peso. Assim, o escopo de pessoas que chegam ou pretendem chegar a este topo é muito restrito. Suely Vilela não era favorita para o cargo naquele momento. E as explicações para que ela chegasse a este cargo foram várias, inclusive fofocas a respeito da sua vida íntima.

Durante a sua gestão, enfrentou uma grande crise com os alunos que ocuparam a reitoria durante uma greve em 2008. Nas negociações salariais com as entidades representativas dos funcionários e docentes, a reitora da USP cedeu o lugar de liderança das negociações para o reitor da Unicamp. Fato único, o reitor da USP, por ser a maior universidade, costuma sempre liderar as negociações.

A revista Veja, insuspeita, traçou um perfil de “mãezona” da reitora na relação com os alunos ocupantes da reitoria, e ressalta a sua preferência por músicas românticas. Um romantismo incapaz de tratar aquele momento de crise.

Eu disse no início que Vilela é professora titular da USP. Portanto, uma pesquisadora de renome na sua área. Apareceu algo que se refere a sua carreira intelectual, ao fim do seu mandato: um artigo – na qual ela é uma das co-autoras – em que partes dele foram considerados plágio. A primeira e até agora única mulher a ser reitora da USP termina o seu mandato.

E foi chamada de perua pelos manifestantes e críticos.

A segunda é a atual presidenta Dilma Roussef. Que, de cara, ao contrário de Vilela, sequer teve o direito de ter reconhecida a sua identidade de gênero no seu cargo pelos meios de comunicação hegemônicos. Vilela era chamada de “reitora” e Roussef ainda é tratada de “presidente”.

Se Vilela era perua, Dilma é a vaca para os manifestantes favoráveis ao seu impeachment. Se Vilela era romântica demais para exercer o cargo, Dilma é troglodita, inábil e sem condições de governar o país.

Enfrentou na eleição um candidato que tem o hábito de apontar o dedo para as mulheres (Luciana Genro, do PSOL, chamou a atenção disto em um debate eleitoral). Adesivos grosseiros e machistas são distribuídos.

Em determinado momento, até mesmo alguns apoiadores da sua candidatura questionam a sua capacidade de disputar a reeleição. Querem a volta do lider-mor, Lula. Até alguns empresários aventam esta hipótese.

Os comedidos comentaristas da “grande imprensa” (sic) apressam a dizer, desde o início, que o seu governo “acabou”. O prócere da Fiesp faz campanha pela sua renúncia.

Como última cartada, a presidenta chama o líder-mor do seu partido para o ministério. Motivo: recompor a base aliada, tentar tirar o governo da encrenca política que se meteu, buscar criar pontes de negociação. Coisa que ela não tem habilidade. Mulher inflexível.

Suely, mulher muito romântica, sem pulso firme.

Dilma, mulher inflexível, inábil.

Depois de Suely, um homem a sucedeu com pulso firme.

Dentro do gestão Dilma, um homem vem para tentar “salvar” o seu governo.

Mas estes homens também são xingados pelos seus opositores. São? Xingam-nos de “filhos da puta” – ou seja, as suas mães, outras mulheres.

E ainda dizem que o machismo não existe…

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