Comunicação e Jornalismo, Incomodos

O ponto em comum do jornalismo da Veja com o proto-estalinismo démodé de um “jornalista” na USP: os fins justificam os meios


 

Em tempos de crise política, não só as ideologias se expressam de forma mais explicita como também se percebe as aproximações entre os extremismos de lado a lado. Principalmente quando se pratica um jornalismo que parte de pressupostos e premissas e quer “enquadrar” os fatos sob a sua perspectiva, não tendo nenhum prurido em usar as técnicas mais grosseiras de manipulação para isto ser alcançado. Vendo isto na revista Veja, não há nenhuma surpresa. Mas o mais grave é quando isto vem de um jornalista que se diz de “esquerda”.

Na sexta feira passada, dia 1º., o Informativo da ADUSP (Associação dos Docentes da USP) publicou uma matéria intitulada “Cursos pagos ampliam a privatização da ECA” feita pelo jornalista Pedro Estevam Pomar. É de conhecimento de todos que há uma posição da Adusp contrária aos cursos pagos. Mas o problema da matéria não reside nisto e sim na forma que ela foi feita que descambasse para uma difamação do meu nome e de outros colegas e na veiculação de informações erradas.

O jornalista Pedro Pomar mandou as perguntas da sua suposta entrevista na sexta feira na hora do almoço para um email institucional, que vai cair na secretaria. A secretaria repassou este email para mim no inicio da tarde de sexta, quando estava participando de uma reunião com bolsistas e pesquisadores do meu grupo de pesquisa para tratar dos encaminhamentos de um projeto da Fapesp. Somente tive conhecimento do email no final da tarde e como, em nenhum momento da mensagem, o jornalista informava o dead-line para responder as perguntas e as mesmas questionavam dados que necessitavam de uma pesquisa (como valores obtidos pelos cursos, etc), programei de responder depois.

Qual foi minha surpresa que no mesmo dia, no início da noite, chega o Informativo Adusp no meu email pessoal com as perguntas feitas e a informação que eu não respondi  até o fechamento da edição.

O interessante é que o jornalista Pedro Pomar manda as perguntas para o email institucional do departamento, sendo que a Adusp, entidade que ele trabalha, tem os meus emails pessoais a ponto de TODA A CORRESPONDÊNCIA da entidade ser enviada para estes endereços.(inclusive o boletim que ele produz). Afinal, eu sou associado da Adusp.

Mais: não há nenhuma justificativa para que as perguntas só fossem enviadas no DIA DO FECHAMENTO do boletim que é SEMANAL. Ora, não se trata de uma “pauta quente”, de última hora, ela poderia bem ser mandada antes. E fica ainda mais estranho que a professora Margarida Kunsch, diretora da ECA e também citada na matéria FOI ENTREVISTADA NA QUARTA FEIRA.

Qual o interesse do Pedro Pomar em deixar a entrevista comigo para a última hora? Dificultar a minha resposta para que apenas a “sua” versão fosse publicada e, marotamente, transpassasse para os leitores do boletim que ele “tentou” entrevistar-me e eu não respondi?

Diga-se de passagem, um jornalista de um boletim da Adusp não se dignar a vir entrevistar uma fonte que trabalha no mesmo lugar do seu trabalho (o campus Butantã) e querer fazer tudo por email é, para dizer o mínimo, um jornalismo preguiçoso.

Indo além. A matéria do Pomar tem uma série de erros que poderiam ser evitados com pesquisa mínima no regimento e no site da USP.

Primeiro, os cursos pagos que eu coordeno NÃO SÃO DO CJE (DEPARTAMENTO DE JORNALISMO E EDITORAÇÃO). O CJE NÃO TEM CURSOS PAGOS, por uma diretriz aprovada há tempos no departamento. O Pomar se confundiu achando que o Celacc (Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação) é uma “fundação” (como a FIPE, a FIA, etc) que intermedeia os cursos do CJE.

Em determinado momento, ele demonstra estranhamento que o site do Celacc está abrigado no portal da USP. É claro! O Celacc é um NAP (Núcleo de Apoio à Pesquisa) vinculado à Pró-reitoria de Pesquisa da USP. Se o Pomar não sabe, existem vários NAPs na universidade – o NEV (Núcleo de Estudos da Violência), o Nuppes (Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas), o Neinb (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro). Os NAPs são previstos pela Resolução 3657/1990 (clique aqui para ver). Coordeno o NAP Celacc desde 2010 e temos realizado vários projetos de pesquisa (inclusive na sexta, dia 1º, estava em uma reunião de um deles). O Celacc não é uma “fundação” que intermedeia cursos do CJE e sim um NAP com autonomia administrativa. Nada a ver com o CJE. Um jornalista que trabalha em uma associação de docentes não conhecer o regimento da universidade em que tal entidade representa é uma tremenda incompetência.

“Escurecido” este ponto, não existe conflito de interesses entre a chefia do departamento e a coordenação do Celacc. Primeiro, porque ao contrário do que pensa Pomar, o chefe de departamento não tem que ficar “fiscalizando” os docentes do seu departamento se eles estão dando aulas em cursos pagos ou não, apenas se eles estão cumprindo as suas obrigações no departamento. Quem faz esta análise da dedicação dos docentes é a CERT. Se a ilação do Pomar é que eu esteja “facilitando” situações de determinados docentes que eventualmente estejam ministrando aulas em cursos pagos do Celacc, ele terá que falar textualmente e provar isto, pois se trata de uma acusação séria.

Segundo, que a aprovação dos cursos do Celacc passa por colegiados dos quais a chefia não tem participação, que são as comissões de cultura e extensão da unidade e da reitoria (mais um desconhecimento do regimento da universidade do “jornalista”).

E, não satisfeito com este festival de erros, Pomar comete mais um, este bizarro: ele diz que eu ministro cinco disciplinas nos cursos de extensão do Celacc e apenas duas na graduação. Conclui, daí, que eu me dedico mais aos cursos pagos que a graduação e pós-graduação. Aí a bobagem descamba: desde quando se mede a dedicação de um docente pelo “número de disciplinas”? Só na cabeça dele. A dedicação de um docente no ensino se mede por horas aula semanais. Isto em qualquer lugar do mundo é assim. A carga horária média na graduação que eu dedico é de 10 horas aula semanais (oito de uma disciplina obrigatória e duas de uma optativa). Na pós-graduação stricto-sensu, mais 2 horas aula semanais em um semestre e 4 no outro. Sem contar orientações de TCC de graduação e de mestrandos e doutorandos de dois programas de pós graduação que sou credenciado (Prolam e Promuspp da EACH). Já as disciplinas dos cursos de extensão são modulares e em sequência (não são todas ao mesmo tempo) e, até por força regimental, eu não ministro mais de 4 horas semanais. Assim, a minha carga horária é de 40 horas semanais nas atividades de graduação, pós stricto sensu, pesquisa e extensão – além das administrativas, e apenas 4 horas nos cursos de extensão.

E, para terminar, uma informação ao Pomar e colegas: eu NÃO RECEBO ABSOLUTAMENTE NADA dos cursos do Celacc.

Os recursos auferidos por estes cursos servem unicamente para pagar os docentes externos e para financiar as atividades de pesquisa do Celacc (por isto, inclusive, que eles são bem mais baratos que os demais além de vários alunos terem bolsas integrais, entre eles os funcionários da universidade). Como este núcleo trabalha comunicação e cultura popular, integração latino-americana, culturas negras e dos povos originários, movimentos sociais, os projetos de pesquisa tem dificuldades de conseguir financiamento das agências de fomento. E tampouco o Celacc faz pesquisa financiada por empresas, que é uma prática adotada em vários núcleos de pesquisa (aliás, considero isto uma forma perversa de PRIVATIZAÇÃO da universidade que raramente vejo ser abordada).

Optamos por esta via para manter estas pesquisas permanentemente sendo realizadas e, mais que isto, socializadas em eventos (como os Simpósios Internacionais de Pesquisa em Comunicação e Cultura na América Latina realizados em 2000, 2001 e 2010 e o Fórum Internacional de Gestão Cultural, realizado em 2012) e publicações. A estrutura mínima que o Celacc conseguiu construir com estes recursos possibilitou que tivesse uma publicação científica no padrão Qualis B1 (o ExtraPrensa, que está no portal Sibi). E também que o Celacc se filiasse à CLACSO (Confederação Latino-Americana de Ciências Sociais) que tem possibilitado vários intercâmbios. Se alguém tiver dúvidas, podemos mostrar os balancetes e os formulários de caracterização financeira de todos os cursos.

Concluindo, é lamentável que um jornalista que se diz de “esquerda” e trabalha em um informativo sindical se preste a praticar um jornalismo não só de péssima qualidade, mas voltado a manipular grosseiramente informações para defender posições pré-concebidas. Justamente práticas que condenamos na mídia hegemônica, como a Veja e a Globo. No final, faz pensar se não há um fundo de razão nos pensadores que apontam que determinadas posturas ditas de extrema-esquerda como o estalinismo em alguns momentos se aproximam da extrema direita, como o nazismo. Aparentemente, o jornalismo de Euripedes Alcântara e de Pedro Pomar tem muitas semelhanças. – os fins (defender as causas e os pressupostos) justificam os meios (inclusive falsear informações e manipulá-las grosseiramente) Mas a Veja está na dela. O proto-estalinismo de Pomar é que está “démodé”.

 

 

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