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Bróder


O bróder era uma pessoa de bom coração. Bom papo, amigo, pessoa daquelas que não faz mal a ninguém. Curte rock clássico, em especial Rolling Stones, samba, black music dos anos 1970. Um bróder mesmo. Mas mesmo assim a insolência de toga achou, por bem, isolá-lo do mundo. Recolhê-lo como se fosse um perigo. Perigo para quem? Para a própria insolência de toga. Também a insolência de toga não tinha culpa, apenas era pau mandada da máquina opressiva de que fala Foucault – aquela mesma máquina de punir que o soberano tinha a hombridade de assumir e que insolentes de toga e artífices tecnicistas de paletó fazem parte do “casting”.

Duas horas gastei no domingo para ver o bróder. Estava dia bonito, ligeiramente frio, mas com sol. Conversamos andando pelo gramado do campo. Assunto: quem era melhor, Rolling Stones ou Beatles, Mick Jagger ou John Lennon? Com a autoridade de roqueiro clássico, bróder cravou seco em Jagger, sem deixar de passar a chance de sacanear: “ele até conseguiu ter um filho com a chata da luciana gimenez!” Mas o debate teve qualidade: Jagger, disse bróder, era um cara que estudava muito, tinha incursões no blues e no jazz e foi amigo do Peter Tosh. Mas Lennon, contra-argumentei, foi o símbolo do protesto da contracultura, não se pode esquecer isto, e bróder, quase como sempre, concordou comigo.

Corte para futebol. Neymar é um craque, concordamos. Santistas de carteirinha, eu e ele, criticamos o atual time e, principalmente, os atuais dirigentes do alvinegro praiano. Lembrei a idéia do meu cunhado-grande amigo: uma puta empresa dirigida por donos de padaria. Bróder concordou e declarou preferir a gestão anterior, pois “pelo menos eram safados explícitos e o time ganhou vários títulos”. Ainda no futebol, seleção brasileira vai ganhar na porrada e no entusiasmo e não porque tem time, disse bróder, e eu concordei e ainda disse que torceria para a seleção mais para consagrar Neymar e Paulinho, e também por questões políticas. “Já imaginou o Brasil de volta nas mãos da tucanada”, bróder olhou pra cima e concordou.

Andamos pelo campo de futebol. Bróder mostrava, lá longe, a serra que fazia divisa com outro estado. Perguntou da minha viagem aos Estados Unidos, e lembramos do questionário engraçado que a embaixada aplica para ter o visto. Bróder começou a imitar o falecido Paulo Francis que, em certa ocasião, no Jornal da Globo, disse que “estava comprovado que a idade mental do norte-americano era de 12 anos, pois só isto explica que no filme Rambo um homem sozinho derrota o Vietnã, coisa que o Pentágono inteiro não conseguiu”. Como sempre, no meio do papo de homens, sacanagens rolam, e falamos bem e mal de determinadas mulheres (dependendo dos seus atributos físicos).

O papo rola por outras coisas do cotidiano, família, tudo regado a uma caneca de café ruim e pão seco. Mas toca o sinal e é hora da gente se abraçar e despedir. Tarde legal, bonita, sol, passeio no gramado e papo ponta firme. O café ruim foi tão bom quanto a cerveja Original gelada que a gente sempre toma no Rei das Batidas. Mas em breve o broder vai estar do lado de cá, onde merece, pois acredito que até as insolências de toga tem consciência. Enquanto isto, quando puder, estarei lá para poder dar um abraço e bater um papo – pois isto não tem insolências que consigam tirar.

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