Olhares poéticos e líricos

Eclipse não oculto


Sidnei saiu voando do trabalho. Estava terminando uns relatórios de atividades prestadas a uns clientes, aquelas coisas de consultoria empresarial, como administrar fluxos de comunicação interna, pensar nos “stacke-holders”, e coisa assim. Ex-militante comunista, não acreditava nada daquilo.

Aliás, nos seus primórdios, quando montou sua pequena empresa de consultoria empresarial vivia uma crise de consciência. Aprendeu e se convenceu pelas “cartilhas do partido” que tudo aquilo eram ferramentas de dominação ideológica. Resistiu a entrar neste ramo, mas o acúmulo de contas a pagar e a demissão do emprego que estava não deixou muitas opções. Começou timidamente, escondendo dos outros o que fazia até que, quando percebeu que a militância que fazia era pura ilusão, desencanou. Afinal, era uma forma honesta de ganhar a vida.

Mas se não tinha mais crise de consciência, tampouco acreditava naquilo. E isto ia contra todos os manuais de auto-ajuda e de venda que dizem que você só consegue vender um serviço ou produto se acredita nele. Talvez a postura cética com relação àquilo o transformava em uma pessoa que absorvia as tecnicalidades de forma extremamente funcional – e isto funcionava.

Ex-militante mas não ex-amigo. Manteve relações de amizade com várias pessoas do partido, algumas delas com muita intimidade. Foi assim que recebeu a ligação de uma antiga “camarada” que estava morando fora de São Paulo. Disse ela que estava na cidade e gostaria de reencontrá-lo.

Pensou – tiveram um relacionamento amoroso durante um tempo. Relacionamento transgressivo: ela era casada e ele, também. Em várias ocasiões em que se encontraram, rolava a química – eram gargalhadas, lágrimas, abraços, beijos sensuais e, ao contrário do eclipe oculto do Caetano, na hora da cama tudo pintou direito. E isto durou muito tempo justamente por ser um amor transgressivo.

Vânia era o nome dela. Sidnei não sabia porquê ainda tinha tesão por ela, nunca foi tão bonita e, para ser franco, nem tão agradável, tinha um papo meio chato simplesmente por ter toda a sua vida centrada na militância: os seus amigos, familiares, sua rede de relacionamento era da militância partidária, até o seu emprego pois trabalhava dentro da organização.

Passaram-se mais de dez anos deste o último encontro e ao falar com ela por apenas cinco minutos no telefone, sentiu que pouco tinha mudado. Nem mesmo o tesão inexplicável que o fez topar encontrar com ela naquela noite, mesmo sabendo que o dia de trabalho seria intenso.

Saiu correndo para encontrá-la próximo a zona norte, onde estava rolando um destes eventos de movimentos sociais organizados – congressos, seminários, conferências, sei lá o nome. Parou o carro, ligou para o celular dela e ouviu “espere um instante, estou indo ao teu encontro”, Aguardou impaciente por cinco minutos, não estava a fim de topar com velhos “camaradas” que sempre te cobram – explícita ou implicitamente – quando deixa estes espaços e vai cuidar da sua vida.

Vânia chegou paramentada de militante, com camisetas estampadas de campanhas, bottons, adesivos, como uma autêntica estudante revolucionária dos anos 1960, porém com idade para ser mãe de uma destas. Sorrindo, como sempre, chegou, abraçou-o e o beijou na boca. Querendo sair daquele ambiente, Sidnei abriu a porta do carro para ela e saíram.

No percurso, as conversas triviais de sempre – “como está?”, “como foi de viagem?”, “como está fulano?” e por aí vai. Foram a um pequeno restaurante no centro da cidade, onde pediram uma porção de mandioca frita e uma cerveja.

De repente, conta ela a noticia, “estou viúva, meu marido faleceu semana passada”. Várias coisas passaram pela cabeça de Sidnei, “será que agora ela vai querer uma relação séria?” mas recuperou a deselegância egocêntrica para perguntar “o que foi que aconteceu?”. Tranqüilamente, pelo menos era o que transparecia, Vânia contou que o marido estava doente, “o câncer na próstata se disseminou” e que os últimos meses tinham sido um inferno na vida dela. “É, doença em família dá trabalho”, disse Sidnei, mas ela contou que não era isso, era que tinha aparecido uma amante do marido dela que, inclusive, tinha um filho com ele.

Sidnei e Vânia riram juntos da situação, imaginando que enquanto eles estariam transando em certos momentos, o marido de Vânia estava com a amante. “Ela pediu, disse Vânia, para ir ao enterro dele também.” Os dois se olharam e pensaram talvez a mesma maldade: uma boa oportunidade de dar uma paulada na cabeça da amante e mandá-la junto com o cara, ficariam juntos para sempre. Se pensaram, a idéia não saiu na boca de nenhum dos dois, apenas a preocupação expressa por Sidnei de como estariam as crianças.

E papo vai, papo vem, muitas risadas naquela semana de luto de Vânia e de tesão inexplicável de Sidnei, cujo denominador comum foi a saudade sendo devorada pelos goles de cerveja e os bocados de mandioca. Em várias outras oportunidades destes encontros, eles sempre acabavam na cama mas depois de uma hora e meia, Vânia mostrou-se sonolenta e perguntou se ele não se importava em deixá-la no hotel pois queria dormir. O eclipe não estava ocultou e sim explícito, pois também estranhamente Sidnei estava a fim de ir para casa. Ou ainda ficar mais um pouco batendo papo, coisa que não era recomendado por ser dia de semana, horário avançado e mais um copo de cerveja seria arriscado para quem iria dirigir. Tudo isto na verdade era desculpa: estava satisfeito por ter revisto uma amiga, satisfação esta livre dos compromissos partidários ou das obrigações sexuais. Admitir isto para ambos foi como se fosse um grito de libertação.

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