Observações do cotidiano

“Sou um cão e não um pet”


O blog “Escrevo o que quero” recebeu esta carta de um cão weimaraner, morador de um condomínio de apartamentos de classe média no Butantã. Ele pediu que esta carta fosse divulgada entre todos os donos de pets.

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Deixa eu me apresentar. Sou um cão, filhote ainda, 2 anos, mestiço de weimaraner e um vira lata. Vivo com um casal sem filhos, minha dona tem uns 40 anos e meu dono, 43 eu acho. Moro em um apartamento de dois dormitórios – um deles é do casal e outro funciona como escritório (os meus donos são microempresários). Eu durmo em uma caminha preparada por eles na área de serviço, mas tenho acesso livre a todas as dependências da casa. Vira e mexe, os meus donos pedem para dormir com eles na cama. Minha dona costuma mais fazer isto, principalmente quando está sozinha por conta das viagens do seu marido.

Bem, o meu desabafo é o seguinte: não gosto desta vida de “pet”, apesar de toda a sofisticação que os seres humanos conferem a isto. Vejo os meus colegas vira-latas andarem livremente pelas ruas, sei que a vida deles é difícil, sujeito a um monte de riscos, mas pelo menos eles não precisam de tempos em tempos serem obrigados a terem seus pelos lavados e escovados nestes pet-shops. Odeio ter que ficar parado enquanto uma figura fica penteando os meus pelos e conversando comigo como se eu fosse um retardado: “vai ficar bonitinho, que gracinha…”. Tenho medo que meus camaradas da rua me vejam nesta situação, já pensou a desmoralização?

Apartamento é um lugar muito chato para se morar. Não sei como os seres humanos aguentam isso, deve ser o habitat deles. Onde você anda tem parede, tem coluna, tem móvel, a gente não pode correr sem derrubar uma coisa… E tem coisa que machuca. Aquele chão liso, encerado, escorrega. Saudades de um terrão para correr a vontade!

Odeio quando minha dona me beija o focinho. Minha dona parece ser uma espécie bonita de homo sapiens mas eu sou mais a cadelinha da esquina. Faz mais o meu tipo. Não sei porque a minha dona fica com esta de ficar me beihando e, pior, querendo que eu durma com ela na cama… A cama dela é chique, mas sou mais o meu cantinho, afinal quero minha privacidade.

E o meu dono com aquela de querer brincar comigo como se eu fosse um bebê. Outro dia ele me pegou no colo e ficou fazendo aquela brincadeirinha que os seres humanos fazem com seus filhotes – “serra, serra, serrador, serra o papo do vovô…” Fico pensando se eles gostam tanto de brincar com crianças, porque não tiveram filhotes? Ou adotassem algum por aí, vejo tanto filhote de ser humano abandonado…

E eles gostam de me levar em todo lugar que eles vão. Não curto estes lugares que os seres humanos vão – shopping center, caixa de banco, supermercado. Tem alguns que eu não posso entrar e aí tenho que ficar amarrado fora. Por que não me deixaram em casa em paz?

Enfim, quero deixar aqui registrado – sou um cão e não um “pet”.

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2 thoughts on ““Sou um cão e não um pet”

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