Observações do cotidiano

Eu e a magrela


Tomei uma decisão para este ano: vou parar com esta vida sendentária e tentar voltar ao meu peso normal. Em outubro deste ano completo meio século de vida e aí a gente entra naquela fase da vida em que não é a morte que nos ronda mas sim as doenças, as dores, etc. E isto é uma coisa que não estou a fim de encarar. Nos últimos exames clínicos que fiz, minha pressão nunca fica abaixo de 14×10 e o colesterol teima em ficar acima dos limites.

Também não estou a fim – já tentei e não consegui – entrar naquelas dietas malucas: virar vegetariano, comer sopinha toda noite, etc. Até porque o meu ritmo de vida pessoal e profissional obriga-me a fica muito tempo fora de casa e nem sempre é possível comer em casa e nos horários certos. Ainda não conheci um nutricionista que consiga preparar uma dieta equlibrada dentro destes parâmetros de vida.

Assim, restou por o esqueleto, os músculos e toda a carga de gordura para se movimentar. Aí fui por exclusão: detesto o ambiente narcísico das academias de musculação, esporte que gosto é futebol e volei, mas isso depende de outros; natação também é legal mas a distância da piscina do Sesc da minha casa faz a preguiça dificultar. Sobrou uma coisa que une tanto a necessidade de exercício físico quanto a minha paixão de andar por aí e ver pessoas e lugares: a bicicleta.

Ontem, passei na loja especializada e após ouvir algumas dicas do vendedor, comprei uma uma bicicleta com 21 marchas que tanto serve para fazer trilhas leves como para andar em asfalto. Robusta, se adequa a quem está acima do peso como eu. E estava em um preço acessível.

Lembrei na minha infância em que as bicicletas eram todas a “berlineta” com guidão em U ou a dobrável, com o guidão em V. Depois veio a “top” de linha, a Calói 10 e a Peugeot 10, com dez marchas – ter uma delas equivalia a ter uma bola de “capotão” ou um agasalho Adidas (com as tres listas). Lembrei de tudo isso ao ver a imensidade de modelos de bicicletas (agora chamadas de “bikes”), acessórios, tranqueiras em geral. Coisas do capitalismo na sua era flexível.

Hoje saí as 9h da manhã para começar a pedalar. Minha meta é ir até a USP da minha casa e ver se, pelo menos eventualmente, consigo ir trabalhar de bicicleta. Cheguei perto: fui do Jardim Esther Yolanda, onde moro, até o final da avenida Rio Pequeno. É claro que na volta, subindo a Joaquim Seabra, desci e fui caminhando com a “magrela” (apelido que quando era criança a gente dava à bicicleta) ao lado.

É interessante perceber o trânsito de São Paulo de uma outra perspectiva: andar de magrela te deixa em uma posição intermediária entre ser pedestre e andar de veículo motorizado. Os pedestres não estão nem aí e atravessam na sua frente, não sei se fariam o mesmo se fosse um carro em alta velocidade ou um caminhão. Te vêem como um outro pedestre. A atitude nada tem a ver com esta nova situação em que o pedestre tem prioridade em relação ao carro: mesmo os pedestres que exigem esta preferência em relação ao carro, tomam mais cuidado, pois um atropelamento de carro pode ser fatal. De magrela, machucam ambos.

Quanto aos carros, agem como se fosse um pedestre andando fora da calçada, tomam cuidado mas quando podem passam tirando fina como se dissessem: “aí não é o seu lugar”. Motos não são problema pois elas raramente andam no lado direito das vias e como tem velocidade e agilidade, procuram passar longe de você.

O maior problema de pedalar fora de forma é que quando você para por conta de semáforo ou cruzamento, a retomada é dura. Entendo em parte porque os motoqueiros querem andar direto, sem paradas. É muito chato retomar o equilíbrio sobre duas rodas.

Avistei uma feira e parei para tomar um caldo de cana (me deu vontade, tá, eu sei que ele é calórico e tenho que evitar para emagrecer). Um idoso oriental olha para minha magrela e pergunta: “quando você pagou por esta bicicleta?”. Falei o preço e as qualidades dela (“bom para quem está retomando, leve, etc”). Menti, só para puxar assunto e ver o que ele queria conversar, que eu tinha sido ciclista e parado por ter sofrido um acidente. O velhinho se interessou e perguntou se eu estava bem, sentia dores, etc. Tudo para dizer que ele era massagista e que morava lá perto (deu o endereço dele, coisa incomum nos dias de hoje). Agradeci e continuei tomando o meu caldo enquanto observa outras pessoas.

Outra coisa interessante de andar de magrela é ver as ruas de outra perspectiva. Dentro do carro, você fica mais preocupado com os outros veículos e pedestres que mal vê a paisagem urbana – a cidade parece ser apenas um lugar de passagem, acho que isto contribui para esta visão instrumental que temos do espaço urbano. As cores das casas, as pessoas passando e os olhares são melhores percebidos. Tinha um pessoal que conheci rapidamente no Jardim Brasil, quando participava de um projeto de ação sócio-educativa, que fazia parte de um grupo chamado “Cicloesia”, eram ciclistas que se encontravam e faziam poesias. Naquele momento, achei uma coisa meia bizarra, pois não via a relação entre andar de bicicleta e fazer poesia, mas percebo que a magrela permite um olhar diferente sobre a paisagem urbana, mesmo tomada pelo asfalto, concreto e poluição.

Bem, depois de tudo isso, vejo que a minha nova companheira, a magrela, vai fazer bem não só para o corpo mas também para a mente.

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2 thoughts on “Eu e a magrela

  1. Carlos diz:

    Olá Denis, espero que tudo esteja bem com você.

    Parabéns pela nova aquisição, sou adepto da bike a anos e quando estou nervoso ou precisando de uma boa idéia , vou pedalar pedalar cidade, sempre na contra mão e na calçada, e o resultado é sempre positivo.
    Nessa nova fase de melhorar a saude se precisar de dicas é só falar, lembrando que faço preparação corporal para o povo do teatro.
    Boas pedaladas
    Abraço
    Carlos

  2. Ulisses de Paula diz:

    Minha dica é pare de comer pães com farinha branca, arroz polido, doces, açúcar, batata frita (abolir por uns meses, comer uma vez nunca), comer carboidratos de boa qualidade nutricional na parte da manhã (pão integral da marca nutrela, iogurte com granola ou cereal), almoço uma colher pequena de arroz integral e uma de feijão, ou legumes e grão de bico, salada a vontade e filé de frango ou peixe. Após 3 horas tomar um iogurte, ou lanche de pão integral com queijo branco quente ou frio, com pingado acompanhando ou suco de laranja. Jantar leve, ceia leve. E vê se vai dormir! Não vai dormir tarde beliscando até altas horas. Claro, fazer exercícios que lhe dá prazer, que deem uma elevada nos seus batimentos cardíacos entre 30 e 40min por dia (suba escadas). Isso queima banha. Eu estava com 113 agora estou com 97. Boa sorte!
    Abraços
    Ulisses

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