Incomodos, Observações do cotidiano, Uncategorized

Desapego


Na maturidade, uma das coisas mais importantes que se aprende é o desapego. Você passa a vida inteira atuando para construir e consolidar as coisas e cria a (falsa) expectativa de que elas tomarão um rumo que deseja.

Interessante isto. Os animais quando têm os seus filhotes, os criam durante o período em que eles não conseguem ainda, sozinhos, satisfazer as suas necessidades vitais – alimentarem-se, protegerem-se dos predadores, entre outros. Quando aprendem, são “libertos” e tomam os rumos que acharem melhor. Talvez porque a expectativa no reino animal seja mais simples – espera-se que eles saibam sobreviver.

Mas o universo humano é cultural. E ainda estamos impregnados pela lógica aristotélica da linearidade. A é A, e B é B. Pensar de forma complexa pode ser um exercício teórico factível, mas difícil na prática. E o desapego é uma das práticas mais complicadas e que se funda nesta complexidade.

O desapego tem que ser exercitado em vários momentos. Aquele filho ou filha que você criou e tem uma determinada expectativa, mas segue rumos distintos – não por sua culpa ou por sua influência, mas por decisão própria dele. Aquela relação amorosa que você espera durar para sempre e que chega uma hora se acaba e há o rito traumático da separação – cada um segue o seu rumo, inclusive com outras relações amorosas. Aquele trabalho que você investiu na expectativa que se transformasse em algo projetado – de repente, há uma mudança brusca de rota e você sobra. Aquele projeto político, social ou organizativo que você investiu energia pessoal, financeira, emocional também toma outros rumos. Aquela amizade que você cultivou por anos, de repente a outra pessoa toma atitudes inimagináveis e te magoa.

A princípio isto turva os olhos e parece fazer a vida pesada. Mas acontece ao mesmo tempo o surgimento de outras pessoas, outras oportunidades, outras relações amorosas, outros projetos que te convidam para novas relações, investimentos, engajamentos. A vida é como um andar nas calçadas de uma avenida enorme – você encontra pessoas que caminham com você durante um tempo (pequeno ou grande) mas em determinado momento dobram a esquina. Outras resolvem andar na direção contrária. Ou você resolve virar a esquina. São rumos diferentes que se encontram e desencontram. O desapego é ter a humildade que o seu caminho não é o único existente.

Anúncios
Standard

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s