Observações do cotidiano

Uma das avenidas em Puerta de Toledo, domingo a tarde.

Depois de uma cansativa viagem, que incluiu quase dez horas em Buenos Aires e depois mais doze horas de vôo, cheguei em Madri. Aí veio a preocupação com as exigências feitas pela Espanha a chegada de estrangeiros. No Aeroporto de Barajas – enorme com cinco terminais – o controle de imigração é dividido em três partes: uma para os espanhóis, outro para os da Comunidade Européia e Estados Unidos (!) e o resto. Mas a rapidez da fila demonstrou que as exigências estavam mais brandas. Separei passaporte, cartas de apresentação da USP, convites dos eventos que participarei em Madri e Barcelona, certificado de seguro no modelo Schengen, passagem de volta, reserva do hotel… O cara somente viu a passagem de volta e o hotel, parece que a minha curta estada de tempo (apenas uma semana) não despertou interesse. Bem, esta passou.

Mas sempre imaginei que todo afrodescendente de pele mais clara como eu, mas que se acha “branco” (não é absolutamente o meu caso) deveria, pelo menos uma vez, ir a Europa. Na saída da retirada das bagagens, saí pelo portão indicado “nada a declarar” e quando estava adentrando a porta de saída da ala internacional, um guarda me segurou pelo braço e perguntou: “De onde vem?”, respondi “Do Brasil”. Aí, ele me disse: “então venha aqui” e me conduziu para uma sala onde minha bagagem passou por um sistema de raio X e depois foi aberta e revistada. Nas minhas viagens internacionais, a única vez que isto ocorreu foi no Panamá durante a invasão dos EUA, em 1990, quando capturaram o então presidente Manuel Noriega. Nem em Cuba, na chamada “ditadura do Castro” como dizem os jornais brasileiros, isto ocorreu. Detalhe: no Panamá, TODAS as bagagens foram revistadas, em Madri, eu fui escolhido entre vários de pele alva que saíam comigo naquele momento.

Na hora de pegar um táxi do aeroporto para o hotel, o taxista tenta enrolar um inglês comigo. Respondi em inglês também, mas arrisquei no espanhol: Hace demasiado calor en Madri, no? E ele sorridente, respondeu: Oh, usted habla español! No es de Estados Unidos? Respondi que não, que era brasileiro. Ah, yo entendo brasileños. Usted tiene una piel muy ‘morena’, es difícil brasileños en Madri de piel morena como usted! A partir daí embatucamos numa conversa sobre futebol e política. Torcedor fanático do Real Madri, disse que estava feliz pelo seu time ter sido campeão e não o arqui-rival Barcelona, que estava confiante no título da Eurocopa. E, sobre o Brasil, uma opinião inusitada: Brasil es un gran pais, es un bueno lugar para trabajar, aqui en España es difícil. Falou que o desemprego é enorme na Espanha, que o povo estava com medo do país se transformar numa nova Grécia, risco que para ele correm também Portugal e Itália.

Os espanhóis, de fato, estão muito apreensivos. Está cada vez mais claro o absurdo que é a União Européia, na verdade um acordo que favorece um imperialismo franco-germânico. Um a um, os elos mais fracos da comunidade vão quebrando: Grécia, Portugal, Espanha e Itália. Os chefes de governo estão reunidos nesta semana em Bruxelas e o governo alemão está irredutível em só ceder ajuda aos países necessitados se estes implementarem os planos de ajustes (que significa uma concessão das suas soberanias). A dívida da Espanha está em 270% do PIB e, segundo o jornal El Mundo, 70% dela é privada e apenas 30% pública.

Aliás, uma coisa que os espanhóis podem se orgulhar é da sua imprensa. No domingo, acordei cedo e comprei o El País por €$2,50 (equivalente a R$6,88). A matéria de capa é a reunião de Bruxelas da UE. O jornal faz uma crítica dura ao governo espanhol, pois o primeiro ministro resolveu ir até Kiev para assistir a final da Eurocopa. Mas chamou-me a atenção uma entrevista feita com Martin Wolf, editorialista do Financial Times. O renomado jornalista econômico faz um “mea culpa” e diz que ele e vários colegas seus erraram nas previsões e nunca imaginariam que o modelo liberal defendido por eles resultaria nisto (alguém já viu algum jornalista econômico brasileiro fazer isto, admitir que errou?). Em outra página, uma pesquisa feita com a população espanhola sobre as instituições sociais revelou que todas aquelas referentes ao sistema político democrático estão nas últimas colocações, abaixo até mesmo da família Real (aqui o interessante é que o príncipe aparece na frente do rei).

O El Pais tem uma revista de domingo também, mas bem diferente dos magazines de futilidades que viraram regra na imprensa brasileira. Na edição deste domingo, a revista do diário espanhol tinha uma entrevista com o bispo nicaraguense Ernesto Cardenal, uma matéria sobre o cineasta norte-americano Michael Moore e uma belíssima reportagem sobre as UPPs no Rio de Janeiro, com o correspondente do jornal no Brasil acompanhando a incursão de um batalhão policial no Morro de São Carlos e fazendo uma fotorreportagem, disponível no site do jornal. Na parte do futebol, apesar de toda a mobilização patriótica, o jornal espanhol faz um perfil do jogador italiano de origem ganesa, Mário Balotelli. E, também, é claro, tinha as matérias mais leves, de culinária, estilos, anúncios, etc. Mas nada que indicasse que o jornal considere seus leitores um bando de palermas.

Já a televisão… Nunca imaginei que teria saudades da televisão brasileira. A cobertura da final da Eurocopa consegue ser mais irritante que o Galvão Bueno, da Globo. O jogo estava marcado para as 20h, mas desde as 16h começaram a transmitir. Os repórteres da Tele-Cinco chegam a fazer merchandising na cobertura, imagine só! E durante a transmissão, a preocupação excessiva em desmerecer o jogador negro Balotelli, focando a sua expressão de desânimo a cada gol perdido e também a cada gol espanhol. No bar em que fui ver o jogo, um jovem grita: “es un animal!” mostrando o quanto a intolerância racial grassa por aqui (alô, Neymar, você que fica fazendo clipe de macaco com o Alexandre Pires, veja o que te aguarda quando vier jogar aqui!).

Uma coisa interessante em Madri é que quando você pede uma jarra de “cerveza”, ganha um tira-gosto. A cerveja é vendida nos botecos em canecas de 300 ou 500 ml, em geral por 2 euros (R$5,50). Os botecos oferecem como brinde um pratinho com salame ou presunto cru defumado ou batatas fritas. Em um bar aqui perto, a jarra de 500 ml é vendida por €$1,00 (R$2,75) desde que você também consuma um montadito (um tipo de sanduíche de frios acompanhado de batatas fritas) também por €$1,00. Tomei duas jarras de cerveza e fiquei bêbado, ela é muito mais forte que a brasileira, tem 5,5% de álcool. Café aqui é caro – em torno de €$1,40 (R$3,85) mas mais barato que em Buenos Aires, quando paguei 15 pesos (R$8,90) – também o suco de laranja que sai por €$3,00 (R$8,25). Como uma garrafa de vinho sai por €$2,00, parece que aqui o negócio é beber mesmo.

No bar em que assisti ao jogo – um boteco mesmo, em que você fica de pé, mas mais limpo que as versões nacionais – tinha um velhote que parecia ter ressuscitado das tropas de Franco na Guerra Civil espanhola. O seu jeitão me fez lembrar do seu Pepe, um espanhol que tinha uma mercearia na rua Campos Sales, no bairro do Brás, quando era criança e ia lá comprar doce. Careca e vermelho pelas cervezas que tinha tomado, fez a saudação tipicamente facista quando tocou o hino da Espanha, cantando com fervor. Ao final, bateu continência. O bar só tinha idosos, só mais tarde chegou um jovem para jogar na máquina de caça níqueis (aqui elas são permitidas e são comuns nos botecos).

Falando em idosos, uma coisa que me encantou muito em Madri foi ter visto vários jovens passeando com pessoas idosas em cadeiras de rodas no domingo pela manhã. As ruas de Madri são muito arborizadas e bonitas e convidativas para o passeio. As pessoas andam pelas calçadas, sentam nos bancos e conversam como se fosse uma pequena cidade. Outra coisa interessante foi ver que é comum por aqui os casais se beijarem em público – vi isto em uma madrugada que saí para comprar algo para comer e também no domingo de manhã.

Mas já na manhã de segunda-feira aquela ideia de que na Europa tudo funciona bem caiu por terra quando vi que a bilheteria do metrô quebrou e havia apenas um funcionário – o mesmo do caixa – para consertar, causando uma fila imensa. De qualquer forma, percebe-se que por estas bandas há uma tradição de um maior respeito ao cidadão, embora isto possa causar uma certa frieza.

Anúncios

Madrilenhas I

Nota

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s