Incomodos, Observações do cotidiano

Uma relação não cordial


Joel estava tão puto da vida naquele domingo. Saiu cansado do trabalho no sábado onde ficou até as 4 da tarde labutando e tinha esperança de, à noite, sair com a esposa para um cinema ou um barzinho, Mas a esposa estava mais próxima de exposa tamanho era o desgaste no relacionamento. Não rolou nada, nem cinema, nem barzinho e muito menos uma trepadinha mais tarde. Fanática religiosa, tinha um compromisso no dia seguinte com a igreja e, pelas regras, tinha que ficar “resguardada” no final de semana: sem bebida, sem aglomerações, sem sexo.

Mas o mais grave era o desprezo pela vida. Enfurnou-se tanto na religião que a vida na terra dos mortais era, digamos assim, desinteressante. Vira e mexe, falava uma coisa e Joel, pensando que era com ele, se animava e perguntava:

– O que você disse mesmo?

– Não estou falando com você, estou falando sozinha. – completava

Tentava puxar um assunto de vez em quando. Lia um livro interessante e queria partilhar. Exemplo, o livro “Mídia, teoria e política”, de Venício Lima, professor da Universidade de Brasília que, em certo momento, faz um estudo de como as telenovelas da Globo criaram cenários favoráveis para a eleição de presidentes da República. Puxa o assunto:

– Acabei de ler um livro bem legal, é sobre como as novelas da Globo criaram situações favoráveis para a eleição…

Ela interrompia:

– Isso é óbvio, não sei como alguém ainda perde tempo discutindo isso – e encerrava o assunto, em geral virando as costas e indo fazer outra coisa.

Definitivamente, ela não queria conversa, pelo menos com Joel – preferia conversar sozinha. Pior coisa, era sentir-se só acompanhado. Leu, em certo lugar, que a pior coisa não era a briga, mas o desprezo.

Naquele domingo chato, o seu time ia jogar e passar na TV. Arrumou a TV de plasma na sala, comprou duas cervejas e se preparou para assistir – afinal era o que dava para fazer naquele dia chato. Jogo fácil, o seu time venceu por quatro a zero.

Já era quase noite quando preparou um lanche, pôs a mesa, cinco minutos antes da mulher chegar. Com a mesma cara amarrada de sempre, falando pouco e sem demonstrar qualquer simpatia ou antipatia, ou qualquer tipo de expressão deduzível, a não ser aborrecimento – talvez porque o mundo não se encaixava na forma que achava que deveria ser – sentou-se a mesa e perguntou mecanicamente:

– O que você fez hoje?

– Assisti o meu time na televisão.

– O seu time perdeu? – perguntou, como sempre fazia. Parece que tinha prazer ou desejava que o time do marido perdesse, como se a felicidade dele fosse algo incômodo.

– Ganhou de quatro a zero.

– PERDEU DE QUATRO A ZERO? – perguntou, surpresa, e com uma certa felicidade incontida.

– GANHOU!

– Ahn, respondeu desinteressada.

Um monte de imagens veio a sua mente naquele momento. O livro que lia era bobagem, o seu time tinha que perder, os seus amigos eram chatos. a sua conversa era desinteressante… Definitivamente, não tinha nada a ver um com o outro. Se pouco brigavam é porque era tão grande o desinteresse e o desprezo que sequer o sentimentos de conflito afloravam. A cordialidade – não a bondade, mas o que vem do coração – não existia em absoluto. A ponto de que a felicidade, por menor que seja como uma vitória em um jogo de futebol, incomodava.

Antes só que desacompanhado.

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