Observações do cotidiano

Rosana, Sidnei e a cachoeira


Janeiro, mês de muito calor, quando os dias ficam mais bonitos e mais longos. O tempo fica mais longo, o clima de férias deixa o pessoal mais “slow”, até parece que se ouve pessoas dando bom dia na metrópole desumana e que te convida, quase intima para ser instrumental em tudo, a pergunta “para que serve isto” parece acompanhar e se impor sobre “o que é isso” ou o “que tem de bom nisso”. Muito melhor quando situações que fogem da rotina acontecem.

Sidnei, um homem que tenta fugir do imperativo instrumental muito mais forte no universo masculino já que o mundo definiu que o valor do ser macho está no que ele possui ou tenta possuir, de repente, se vê num dilema. Uma mulher, Rosana, a quem trocou mensagens amorosas durante muito tempo, mas de um amor implícito, um tanto escondido pelo medo, anuncia estar por aqui. Até aquele momento, a longa distância entre os dois fazia companhia ao medo e o protegia. Mas agora, com a presença, era um momento de decisão.

O imperativo masculino da posse clama para o encontro. Mas um encontro instrumental, de possuir tão somente e depois contar vantagem. Como aquela piada em que um navio naufraga e sobram dois sobreviventes em uma ilha, um homem desconhecido e a atriz Sharon Stone que, agradecida por ter lhe salvo a vida, se entrega a ele. O sonho de possuir uma musa acaba depois de um tempo quando ele percebe que não tem ninguém para contar o seu feito. Por isto, ele pede para que a atriz se vista de homem para que ele diga “meu amigo, estou comendo a Sharon Stone”.

As circunstâncias tornavam a situação semelhante a piada, mas sem nenhuma graça. Por isto, não valeria a pena. Mas havia outras coisas: a graça, a simpatia, a atração física e sentimental o impeliam para aquilo. Mas aí caia naquilo que os poetas chamam de amor. E o amor era impossível naquelas circunstâncias também.

Enfim, tudo caminhava para aquilo que sua vó sempre lhe dizia: “Meu filho, não fique parado, ande sempre por aí, coloque um vento nas suas pernas. A vida é como uma estrada de mão única sem retorno. Ande, caminhe e aproveite cada pedaço do caminho que sempre tem coisas para aprendermos.”

O amor dos poetas era paralisante. Queria um amor de trânsito, um amor antropofágico, como Oswald de Andrade pregava. O ser antropofágico come o outro para absorver o que ele tem de bom, enquanto que o civilizado branco escraviza o outro o e mantê-lo à distância.

Encontrou Rosana em um lugar bonito, uma ilha verde cercada de arranha-céus. A luz do sol iluminava o seu rosto, bem de vida, com sua roupa colorida. Conversas oblíquas apenas desviavam a intenção de ambos, a espera de ser verbalizada por um deles. Até que Sidnei tomou coragem e disse, depois de um longo beijo: “Vamos continuar isso em um lugar melhor?” e ela, demonstrando até um pouco de praticidade, “precisa comprar camisinha”.

A beira da estrada, em um hotel perto de um lugar paradisíaco, os corpos de Sidnei e Rosana se encontravam freneticamente, com a timidez sendo jogada fora com as roupas. Lembrou de Oswald quando Rosana nua na cama, de costas para ele, disse “Me come, Sidnei, me come”. Putaria travestida de intelectualidade, dirão alguns. Conclusão óbvia de quem fica preso ao esquema moral e transgressão. Perde riquezas do momento e até mesmo a polissemia das situações.

Beijos e mais carícias e o corpo dela dançava sensualmente sobre ele lembrando os movimentos de uma Oyá, misto de sensualidade e espírito guerreiro. O seu olhar fixo sobre ele enquanto rebolava seus quadris demonstrava convicção, livre de qualquer sentimento de culpa. A coragem daquela musa de olhos fixos e sorriso sedutor constrastava com um restinho de medo que ainda restava em Sidnei. O que resultaria daquilo, insistia em cobrar um restinho de visão funcional masculina dentro dele.

De repente ele vê  uma cachoeira que o convida a mergulhar. As pedras que dificultavam o caminho pareciam ser difíceis de serem superadas, mas, resoluto, passa por cima delas e mergulha fundo. As águas da cachoeira o abençoam, renovam sua cabeça e as pequenas gotas formam diversos arcos-íris. As cores lembravam as roupas de Rosana. Só ouve o barulho da água caindo na sua cabeça e ele lá dentro da cachoeira, totalmente dentro. Molhando-se, curtindo, não vê o tempo passar. O barulho da água da cachoeira vai tomando forma de uma voz que diz, graciosa “acho que estou ficando apaixonada”.

Um filme iraniano chamado Gabeh mostra uma tribo nômade na região da Pérsia em que a mulher mais nova registra cada passagem do clã com bordados em um tapete. O nômade transita e sedimenta experiências. Seja num tapete. Neste caso, para Sidnei foi na mente. O mergulho naquela cachoeira e a dança sensual da orixá guerreira ficaram bordados na sua cabeça. A estrada, porém, continua e, nas bifurcações, as pessoas seguem caminhos diferentes. Rosana e Sidnei seguiram suas trajetórias, mas tem suas marcas bordadas ainda que não possam mostrar para os outros – também, para que?

(Este conto foi produzido a partir do relato de uma pessoa amiga sobre uma experiência amorosa que teve há muito tempo – serve para dar explicações a momentos pontuais da vida que também tem muita importância)

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