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Shoppings e infantilização


Passear pelo shopping center sempre faz-me lembrar um texto que li na obra “Quem manipula quem”, do professor Ciro Marcondes Filho intitulado “Shopping center, o LSD da classe média”. Neste texto, o autor faz uma analogia do espaço do shopping a um sonho, uma “viagem” – como faziam os adeptos do ácido lisérgico – a um paraíso da sociedade de consumo, em que não havia pobres, mendigos, miséria e tudo era bonito, high-tech, sem marcas de cultura local e extremamente americanizado. Higiene total.

A shoppingização da vida acompanha até espaços marcados pela sacralidade tradicional do conhecimento como as universidades. Estas viraram verdadeiros shoppings não só na acepção direta do termo – os campi viraram verdadeiros centros de compras, com lojas de todos os tipos exibindo seus luminosos – como a própria concepção de universidade, prédios assépticos, limpos, bonitos demonstram a prioridade de investimentos destas unis da vida enquanto que o salário e as condições de trabalho – e mesmo a qualidade – dos docentes…

Os anúncios destas instituições lembram verdadeiros paraísos de felicidade. Alunos bem vestidos exibem seus sorrisos de satisfação como personagens de anúncios de comércio, laboratórios bonitos e limpos são mostrados junto com equipamentos de alta tecnologia e promessas de satisfação pessoal – que significa nesta concepção de ensino, ingressar no mercado de trabalho.

A shoppinguização da vida escamoteia os conflitos, as dificuldades, os problemas sociais que exigem não um profissional bem formado mas um ser humano capacitado para refletir e atuar sobre. E é justamente na formação deste SER HUMANO – e não profissional capacitado – que a educação tem falhado.

O sonho de poder ter tudo, a medida que não é tornado realidade, não é motivo de uma reflexão crítica da sociedade mas sim de uma frustração pessoal – e aí dá-lhe auto-ajuda, terapias mil, tratamentos para depressão, etc.

Marilena Chauí disse certa vez que a sociedade de consumo infantiliza a humanidade, pois o conceito freudiano de infância é justamente a não percepção da diferença de tempo entre o desejar e o ter. Esta percepção, típica da maturidade, que dá a dimensão da ação necessária para poder satisfazer os desejos (e aí vai o dilema típico da maturidade que é saber ponderar os desejos tendo em vista a consciência das dificuldades que está a fim de enfrentar para satisfazê-los).

Enquanto isto, a classe média se refugia no LSD da vida-shopping onde o cartão de crédito resolve – até a conta estourar ou uma outra crise econômica tomar conta do país e criar uma frustração coletiva. Por estas e outras que muita gente está refugiando-se no petlovismo (ver post anterior) – no mundo entre donos de pets e seus pets não há contradições sociais e nem tampouco necessidade de reflexão. Como ler as imbecilidades daquilo que se chama revista Veja.

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One thought on “Shoppings e infantilização

  1. Mateus diz:

    Esse texto acertou em cheio, lá na ferida kk. Gostei do seu paralelo com o LSD, nunca tinha pensado nisso. Ai vem a questão: se a classe média é a juventude eterna e o consumismo é o LSD, então o Brasil é o paraíso de San Francisco, onde devemos entrar de flores na cabeça e encontrar pessoas gentis.

    E nós sabemos o que aconteceu com San Francisco quando o LSD saiu do controle.

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