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Clóvis Moura e a bomba do anti-racismo


Participei na sexta-feira passada de uma mesa na abertura do Encontro de Negros e Negras do PSOL, no auditório do Sindicato dos Previdenciários no centro de São Paulo. Aquele dia estava extremamente cansado. Um dos cursos de pós-graduação do Celacc, núcleo de pesquisa da USP que coordeno, está na fase final, a etapa de orientação dos trabalhos de conclusão de curso. São mais de 50 alunos que entregaram os projetos de pesquisa e tive, junto com a secretaria do núcleo,de fazer todo o levantamento do histórico acadêmico de cada aluno, ler todos os projetos, conferir notas e ainda entrar em contato com os professores para a designação dos orientadores. Paralelo a isto, estou escrevendo dois livros, um em parceria com o meu amigo jornalista Renato Rovai, da revista Fórum, e outro sozinho, sobre comunicação. Tudo isto sem contar as atividades cotidianas da docência na ECA.

Mas fui ao encontro. O setorial de negros e negras do PSOL lançou uma revista sobre a questão racial na qual há um artigo meu sobre racismo e anti-racismo. O evento também serviu como lançamento da publicação. Duas pessoas muito interessantes fizeram esta ponte com o PSOL, apesar de eu não ser filiado e até ter algumas divergências com a proposta deste partido: um é o Joselício Jr. o Juninho, aluno meu do curso de Mídia, Informação e Cultura, do Celacc, um jovem batalhador do Embú e companheiro de jornadas no Rei das Batidas quando nós, santistas apaixonados, assistíamos as partidas da trajetória vitoriosa do Santos F.C. na última Libertadores da América; e o outro é o doutorando Fábio Nogueira, pesquisador que topou resgatar a grande contribuição para a luta anti-racista do sociólogo Clóvis Moura, pensador infelizmente deixado meio de lado pela entidade que ajudei a construir, a Unegro, organização reconhecida por ser a única do movimento negro nos anos 90 a  ter seu programa político baseado nas idéias deste importante intelectual.

Uma vez, em 1994 eu acho, estive com o Clóvis Moura em Vitória, por ocasião de uma atividade relativa ao 20 de novembro. Estávamos em um boteco perto do porto de Vitória (ES), ele tomando um refrigerante – já sofrendo de gota – e eu uma cerveja, junto com uma porção de fritas embebida em óleo não se sabe de quando. Ele disse o seguinte: quando a questão racial estourar no país, vai ser como uma bomba que não vai deixar nada de pé. Ele acreditava piamente no potencial revolucionário da luta anti-racista. Mais tarde, no debate que fizemos no auditório da universidade, diante de uma discussão que ainda contamina parte da esquerda brasileira “nacionalista”, ele disse mais ou menos assim: “você não precisa construir um projeto nacional necessariamente mascarando a diversidade de uma população, é possível construir a unidade como projeto político com base no reconhecimento da diversidade”.  Esta resposta de Moura veio ante ao questionamento comum nestas platéias de “esquerda” de que a questão racial “divide” o movimento. Principalmente porque tradicionalmente, a esquerda não consegue enxergar para além da questão de classe, categoria fechada que se torna até dogmática.

Ainda percebi, em alguns discursos no encontro do PSOL, principalmente por parte de membros da direção do partido, algumas dificuldades, principalmente em colocar a questão racial como um plus, como um “algo a mais” na luta social e não entender que a questão racial está na gênese da luta de classes no Brasil. É esta a grande contribuição de Clóvis Moura, principalmente na sua obra “Dialética Radical do Brasil Negro”. E o engraçado é quando se olha para a realidade verifica-se isto: no encontro do PSOL, centenas de jovens negros e negras, da periferia, se entusiasmavam com a discussão e se esforçavam para construir e manter o evento. Olhava para aqueles rostos e via: ou eles estavam ali batalhando para fazer algo diferente ou estariam nas ruas buscando algum sentido para vida, pois o que o sistema impõe é a sobrevivência e não a vivência. Negros e negras estão nos partidos, nos movimentos, nas igrejas, nas ações culturais – meninos declamando orgulhosos seus raps, suas poesias, suas músicas. Esta é a energia, ainda controlada, da bomba de que falava Clóvis Moura que um dia vai estourar os alicerces desta sociedade racista.

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One thought on “Clóvis Moura e a bomba do anti-racismo

  1. Tatiana diz:

    É isso aí mestre, e enquanto a “bomba” não estoura, continuamos contribuindo com a “nitroglicerina” necessária para a explosão.

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