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Manifesto anti-petlovers


Estou sinceramente ficando de saco cheio desta “petização” da sociedade e não é contra os petistas e o PT, mas a mania dos pets. Há uma diferença brutal entre os animais (cão, gato, pássaros, etc) e os “pets” – transfiguração destes animais de estimação em símbolos de uma existência egocêntrica, consumista e burguesa anti-iluminista.

Tal existência se manifesta em frases tipo “cada vez que mais conheço o ser humano, mais prefiro o meu cachorro” (grifo meu para destacar que a criatura não ama os animais em geral, mas gosta do seu cachorro. Por que? Porque ele é obediente ao dono e uma figura desta não quer dialogar com outros seres humanos que implicaria em tolerar o diferente, em relativizar o que pensa, em saber ouvir. O que ele quer é exercer o poder total e como nem mais as crianças e jovens tem esta obediência incondicional, nada melhor que um cachorro – afinal ele não fala, não exprime idéias e nem contraria ideologicamente o dono.

Ou ainda em práticas do tipo levar o cachorro e gato para tudo quanto é lugar, inclusive lugares públicos (outro dia vi uma pessoa sacando dinheiro no caixa eletrônico do banco segurando um cachorro no colo que não parava de latir – imagine ouvir latidos ecoando em um ambiente fechado).

Mudei recentemente de casa, o bairro que moro é muito agradável mas é impressionante como esta “petização” chegou ao ponto de eu ver mais cachorros que gente! De manhã, durante minhas caminhadas, vejo pessoas com três ou até quatro cachorros na coleira. Sem contar aqueles que curtem andar com o cachorro no colo chamando-o de “bebezinho”. Um médico deu uma entrevista não sei em qual mídia falando do alto índice de ocorrência de mordidas no rosto por conta desta mania dos petlovers carregarem cachorros no colo como se fossem brinquedinhos de pelúcia.

Um outro problema grave desta petização é achar que todo mundo é obrigado a viver, conviver e aguentar as consequências desta petização. O bairro que moro é muito bonito, arborizado, tem belas praças, mas todas contaminadas com um festival de cocôs de cachorros. Não dá para dizer nem que se tratam de cães vira-latas pois estes praticamente inexistem no bairro. São os petlovers que saem de noite com seus brinquedinhos de estimação para que estes sujem as ruas. Os demais transeuntes que se danem!

Calçada de uma rua arborizada do Jardim Esther Yolanda transformou-se em "campo minado" de bosta dos cachorros dos petlovers do bairro

Esta consciência egoísta e privatista tem sido a tônica deste petlovismo. Uma socialite, recentemente, fretou um helicóptero para levar o seu cãozinho para São Paulo pois o mesmo passou mal ao comer a marmita do segurança quando a figura estava na praia. Coitado do segurança que ficou sem comida e é bem capaz de ter sido demitido por ter causado estrago ao pet.

Situações como esta lembra Nero, césar do Império Romano, que em um dos seus delírios que expressavam a decadência e degradação moral daquela sociedade, nomeou o seu cavalo para o Senado. E ainda obrigou a todos a reverenciar o mesmo. Travestido de uma pretensa defesa dos direitos dos animais, o petlovismo nada mais é que a mais acabada expressão de uma segmento social que busca afirmar-se pela posse privada de coisas (inclusive de animais) e sem qualquer consciência pública. Por isto que preferem os seus cachorros (friso bem, os seus) do que os seres humanos.

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2 thoughts on “Manifesto anti-petlovers

  1. Marcelo Lemos diz:

    Mais um texto fodido do prof. Dennis! Eu vou divulgar no Facebook. Lembrei-me de uma palestra recente do Roberto DaMatta (ele dizia algo na mesma linha).

    Mas veio outra lembrança também…

    No centro da cidade (Pátio do Colégio) temos a famosa distribuição de sopas (dois grupos). E logo que entrei na Faculdade de História fui trabalhar como voluntário num projeto para melhorar a qualidade de vida da população que mora nas calçadas de São Paulo.

    Numa das várias reuniões com dezenas de “representantes” da tal “Sociedade Civil” sobre a população de rua no centro, levanta a voz uma senhora (logo seguida em coro) sobre o absurdo que acontecia durante a distribuição das sopas.

    Imaginem dois carros distribuindo sopas na rua (cada carro de um grupo “filantrópico” rival). Então, o fulano pegava um potinho de sopa de ervilha, dava uma provada, e depois experimentava a sopa de feijão também (no carro vizinho). Escolhia a mais gostosa e pronto! Mandava pra dentro.

    E aquela senhora apontava esse absurdo que era o cara escolher a sopa que estavam oferecendo “gratuitamente” e de bom coração. Imaginem… eles comiam a sopa mais gostosa e jogavam a outra fora. E o coro foi crescendo, e todo mundo puto com a situação, aquele barulho todo; minha supervisora (do projeto) vira e fala para mim: é mesmo, tanta gente com fome neste mundo e os caras fazem uma coisa dessas…

    Não pensei duas vezes. Levantei e falei sem medo: porra! Até um cachorro escolhe o vai comer e vocês vem falar que uma pessoa não pode comer a sopa mais gostosa?

    Petlovers… motherfuckers…

    abc!

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