Incomodos, Observações do cotidiano

Diário de bordo – em um boteco no Butantã


Uma segunda-feira de mês de férias na USP é tudo de bom para quem está de férias. Para quem está trabalhando, como eu, é uma coisa melancólica. Principalmente à noite, quando tudo está literalmente fechado e o vigia do bloco em que você ainda está trabalhando vira e mexe passa te pressionando para ir embora logo e ele… Sei lá o que vai fazer, pois pelo que eu saiba o horário de trabalho dele é noturno.

Mas isto não é o mais importante. Dois alunos – melhor, um aluno e uma aluna – que estão lá fazendo uma aula de reposição me chamam para uma cerveja. “Lá no bar do norte, na virada da avenida Vital Brasil”, fala um deles.  Sempre fico na dúvida nestes convites. A razão me chama para ir logo para casa – descanso e economizo dinheiro, coisa importante nestes tempos de vacas magras ou que insistem em emagrecer (quando penso que vou equilibrar, acontece uma coisa, ou uma conta nova que surge de repente, ou um problema de saúde na família ou uma despesa extra com minha filha, enfim, desencanei de me preocupar em sair do vermelho – afinal, vermelho é a cor da esquerda e a cor do meu orixá, Xangô).

Mas como ia dizendo, a razão me chama para casa. Mas o coração clama para o lazer. Para uma boa conversa, nada como uma mesa de um boteco com uma cerveja gelada. Uma forma de eu parar de beber é eu ficar sozinho – detesto beber só, tanto é que raramente tem cerveja na minha casa no dia-a-dia.

Saio com meu carro pelas ruas noturnas e esvaziadas do Butantã. O cara falou logo na virada da Vital, mas lá não tem nada, só uma hamburgueria. Insisto, passo duas ou três vezes, paro o carro em lugar proibido, não sem nenhuma preocupação porque eu tenho um tremendo azar de ser multado de noite e até de madrugada – acho que os policiais noturnos saem as ruas só para me multar. Nada. Fico puto, o cara está delirando… Enfim, a razão dá risada do coração e fala triunfante – vá para casa. Sigo adiante pela Corifeu até que em outra curva avisto bar com um monte de gente (o coração ri) e, enfim, vejo os dois.

O boteco é do tipo daqueles que Mario Prata chama de “boteco ruim adorado pelo pessoal meio intelectual e meio de esquerda”. De fato, entre as mesas de madeira, sob teto de madeira e garrafas de 600 ml de cervejas avisto pessoas com perfil próximo daqueles que freqüentam a universidade (não professores, mas alunos), do tipo mais “descoladinho”. Um pouco a frente um cara com jeitão de nordestino forrozeiro dedilha o violão clássicos da MPB – Fagner, Chico, Caetano, Gil… Entre elas, alguns forrós clássicos, de Luiz Gonzaga, claro!

Problema destes botecos: por serem botecos mesmo, com azulejos na parede e sem qualquer tratamento acústico e, em geral, com violões ligados diretamente em caixas amplificadas, o som fica muito alto e distorce (quem vê pensa que eu sou expert nisto, desculpe-me aí Maurício Pereira, um craque nisto). O pessoal que freqüenta, em geral, são fãs do tipo de música, tem uma relação próxima com o cantador e o entusiasmo da platéia incentiva o cara a cantar mais alto. O repertório é legal, mas a cerveja não fica legal sem um bom papo. Ainda tento conversar com a minha amiga, mas parte significativa do que ela fala não consigo ouvir.

Certo momento, o cantador diz que vai dar um intervalo. Alívio, vou poder arranhar uma conversa para combinar com a cerveja. Mas o cara está tão entusiasmado que fala umas três ou quatro vezes que “eu vou e já volto”, “vou ao pipi-house”, “já volto” e eu pensando, “porra, cara, vai embora logo, larga esta merda de microfone”.  Minha amiga rola umas idéias doidas, mas que eu curto muito. Homossexual assumida, faz críticas duras ao machismo e ao mundo dominado pelo olhar masculino. Exagera um tanto nas críticas mas não chego a desconfiar como desconfio de quem é muito incisivo em certas posições. Vejo mais como uma necessidade de afirmação. Vejo até muito mais sinceridade que muitas outras feministas que não conseguem transformar o seu discurso em uma prática, ou pelo menos em uma proposta de prática, culpando o mundo em sua volta por seus eventuais fracassos.

O ambiente Cult de um bar ruim favorece falarmos de vanguardistas musicais, como Skylab (cantor perfomático que é funcionário do Banco do Brasil e se diz totalmente “anti-ecológico” e “urbano radical”), o antigo grupo Luni (de onde surgiu a hoje atriz Marisa Orth), e os hoje já consagrados Lenine e Zeca Baleiro. O cantador, eclético, volta e canta uma seleção de rock dos anos 60 com aquele inglês de primeiro ano de curso de ensino fundamental – “veriii gudiiii”. Nestor Garcia Canclini fala dos trânsitos nos circuitos globais, sempre achei interessante este conceito e mais ainda quando vejo um cara com todo jeitão de nordestino, em uma casa do norte, passando pela MPB clássica bossanovista do Rio de Janeiro, pincelando pelo forró nordestino já assimilado no sul do país e cantando “roqui andi roll”. A platéia uspiana sentada nas mesas de boteco degustando bolinhos de carne seca e cerveja Original agrade e incentiva. E eu tento conversar, até consigo acertar o tom da voz que se adapta ao ambiente.

“Meu pai morreu recentemente”, diz minha amiga para meu espanto. A tranqüilidade que ela conta a notícia não esconde o seu transtorno. A conversa gira para os relacionamentos. Mais que isto para as perspectivas de vida. Nada como uma notícia de morte de alguém próximo para isto ser despertado. Parece que um estalo na nossa cabeça – “vamos morrer” – desperta este assunto. Aliás, eu o detesto, pois a combinação que fiz com a morte é a seguinte: não falo dela e ela não me incomoda antes da hora. Quando for a vez, que seja de uma vez e sem momentos de expectativa, assim como foi quando estava no primeiro ano da escola e estava na fila no posto de saúde para tomar a vacina contra o tétano, uma puta injeção dolorida na bunda – era melhor ser o primeiro logo para não ter que ficar esperando a sua vez ouvindo os gritos de dor dos colegas.

Nestes papos com pessoas mais jovens noto certa angústia mas também uma tranqüilidade quando demonstro que também não crio muitas expectativas, a não ser curtir o que a vida tem de bom. Já fico feliz de ter pessoas com que poder conversar sem ter que cair na velha tentação dos papos sobre futebol, carro novo, objetos de consumo e as piadas homofóbicas, machistas e racistas. Cara, isto é uma coisa legal, pois você se sente a vontade para exercer o que há de mais legal no ser humano: o direito de livre pensar.

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