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Prepotencia travestida de indignidade


Hoje tinha uma reunião no Conjunto Nacional para tratar de um projeto que estamos elaborando com uma empresa da área cultural. Saí da USP e resolvi ir de metrô, embarcando na estação Butantã para descer na estação Paulista (que fica na rua da Consolação) e dali caminhar até a estação Consolação (que fica na Av. Paulista, engraçado né?).

É engraçado ver o que as pessoas conversam nos ônibus e no metrô. Um senhor mais velho junto com uma outra mulher, um pouco mais nova, falavam sobre o trânsito na cidade. Os dois se mostravam inconformados com a reforma na Avenida Rebouças feita pela ex-prefeita Marta Suplicy porque, segundo eles, “piorou o trânsito”. O senhor dizia que ficaram apenas duas faixas para os carros (de fato isto ocorreu com a construção dos corredores de ônibus). E ainda arrematou que ninguém, “nem o Maluf”, ousou mexer na Rebouças, como é que ela fez isto? E concluiu: “Esta mania do pessoal do PT querer dizer que gosta de pobre, mentira, veja a situação do pronto socorro do InCor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de SP), parece campo de concentração”.

Veio a minha cabeça a idéia de que os dois estavam nervosos de ter que pegar um transporte público (o metrô) por este ser muito mais rápido que carro. E a culpa foi da Marta Suplicy porque ela priorizou, na reforma da Rebouças, o ônibus com a construção dos corredores (descer a Rebouças de ônibus é mais rápido e as vezes demora somente porque a qualidade do serviço de ônibus em São Paulo é péssimo, as empresas não são fiscalizadas pela prefeitura que, por sua vez, lava as mãos). E, em instância maior, do PT que deixou o InCor em mau estado. Detalhe que fugiu dos dois inconformados: o Incor e o Hospital das Clínicas são autarquias do estado de São Paulo governado, há muito tempo, pelo PSDB e não pelo PT.

Aí a mulher começa a falar mal dos “políticos” que só pensam neles e ganham muito dinheiro e privilégios. Chavão puro mas adorado por estes tipos emergentes frustrados. O senhor ainda tentou retrucar que existem pessoas boas na política. Mas a mulher manteve-se impassível: “não, o ser humano é assim mesmo, ele chega lá e se corrompe”, uma frase mais ou menos assim, próximo ao que Durkheim dizia (os seres humanos são bons, a sociedade os corrompe). O senhor concordou e foram conversando na passagem que liga a estação Paulista (que fica na rua da Consolação) com a estação Consolação (que fica na Avenida Paulista).

As vezes fico pensando nestas idéias de que o ser humano é ruim, se corrompe, que a humanidade está perdida… Quem fala isto, por um acaso, também não faz parte da humanidade e,  portanto, também não está perdido, corrompido, é ruim? Este tom crítico e pessimista que se diz “realista” e olha de forma ironicamente superior para quem discorda e acredita em mudanças, no fundo, é uma desmonstração de prepotência e arrogância – mesmo que, aparentemente, travestido de um inconformismo e indignação – que expressa muito mais uma frustração pessoal que um olhar crítico da realidade. Gente assim não dá.

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