Observações do cotidiano

“Deixa o menino brincar…”


Na quarta-feira, depois de um dia estafante de trabalho – fiquei na USP das 8h às 22h30 – ao final de uma aula sobre “Teorias da Cultura Popular Brasileira” no curso de pós graduação em Mídia, Informação e Cultura; aceitei o convite do meu aluno e grande amigo, Juninho, para assistir o jogo Santos e Colo-Colo no Rei das Batidas.

Chegamos lá, as mesas estavam todas ocupadas por são-paulinos que assistiam São Paulo e Santa Cruz, pela Copa Brasil. O Rei tinha outra televisão ligada no SportTV que passou o jogo da Libertadores,só que assistimos e tomamos cerveja no balcão (que, se tem a desvantagem de ficar de pé, a vantagem é o atendimento ser mais rápido que nas mesas onde a atrapalhação dos garçons é marca registrada deste boteco).

O Santos já ganhava por dois a zero, gols de Elano e Danilo. Intervalo, segundo tempo, o Colo-Colo pressiona e num ataque do Santos, o menino Neymar pega a bola e dá dois totozinhos encobrindo com meio lençol dois defensores do time chileno. Cara a cara com o goleiro, Juninho, santista fanático, grita: “Faz, moleque!”. No capricho, Neymar mandou a bola para o fundo das redes.

Gol de moleque, de menino travesso, daqueles que faz lembrar os tempos em que eu jogava bola no terrão do CEI (Centro Esportivo do Ibirapuera) depois da aula de Educação Física ou aos domingos, com as balizas marcadas por pedras ou chinelos. Jogando descalço, com bola de meia ou de borracha, sob chuva e sobre o lamaçal, o que importava não era tanto ganhar ou perder, mas fazer jogada bonita, gingar o corpo.

Moleque que se preza tira onda, dá risada de lado, encara, brinca. Havia uma escolinha de futebol ali perto, mas o barato era brincar no terrão.

“Faz, moleque”. O moleque fez e brincou. Brincou de leve, colocando uma máscara que estava no campo. Os podres poderes de que dizia Caetano, porém, não admitem brincadeiras: puseram o moleque para fora.

Desde que algum insensato falou que “futebol é coisa séria”, comentaristas esportivos, cartolas, técnicos, juízes e até mesmo alguns “jogadores” agem para acabar com a brincadeira. Não querem moleques, querem meninos bem comportados. De preferência, com cabelinho cortado bem retinho, que tenham a cútis alva, religiosos, bons mocinhos e obedientes. Não simples, mas simplórios, submissos.

O juiz expulsou Neymar. O jogo não ficou mais bonito. Ficaria se o cartão vermelho inibisse a violência dos inconformados com o jogo bonito, que acabasse com os brucutus. Mas o burocrata que “respeitou a regra da Fifa” foi aplaudido por grande parte dos comentaristas. Muricy Ramalho, novo técnico, foi na contramão: quem faz um gol desses, merece aplauso e não cartão vermelho.

Neymar foi chamado de monstro por um técnico, não sei qual é o nome dele. Foi expulso por esse juiz que também não sei o nome. Tomou e toma paulada de zagueiros que também esqueci o nome. Recebeu uma casca de banana no jogo do Brasil contra a Escócia em que fez dois gols e os escoceses ainda queriam que ele pedisse desculpas porque “não foi um ato de racismo”.

Estes que esqueci o nome não tem importância, não fazem o futebol bonito. Quem traz alegria é o moleque.

Aos juízes, comentaristas e “futebolenses sérios” que não suportam Neymar, Lucas e tantos outros moleques, uma frase de Jorge Ben:

Deixa o menino brincar!

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One thought on ““Deixa o menino brincar…”

  1. Marcilio diz:

    Maravilha, professor…queria muito um post seu sobre a tragédia no Realengo!!! Quando vão discutir o problema sob a ótica do social? Onde estão as contradições da sociedade? Ninguém problematiza o assunto…parece que tudo se resume a um problema psicológico…será que foi só isso?

    Uma luz, por favor!!
    Abs.

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