Observações do cotidiano

Ser pai é ser homem


Minha filha Camila colou grau neste último sábado, dia 26 de março, em cerimônia realizada no bairro da Liberdade. Formou-se em Farmácia. Quando fiz minha graduação, minha turma “meio intelectual, meio de esquerda” abominava estas festas formais de colação de grau. Como bons rebeldes oriundos meia-oitos, éramos contra as convenções estabelecidas.

Depois, acho que por castigo, fui obrigado a participar de várias cerimônias de colação de grau na Universidade Metodista de Piracicaba, ora como paraninfo, como professor homenageado e, depois, como coordenador de curso. A última, no início de 2008, foi num clima muito ruim, pois sentei a mesa com as pessoas que articularam a minha demissão na universidade, na crise da instituição em que cerca de 200 professores foram demitidos.

O mais engraçado é que eles ficaram constrangidos, a ponto de serem mal educados o suficiente de não comparecer no jantar de confraternização em que o patrono – o prof. Marcos Crippa – e sua esposa, convidados, ficariam sozinhos na mesa se eu não tivesse ido (detalhe: na cerimônia eu já estava desligado da universidade, o diretor e o coordenador do curso simplesmente foram embora correndo depois da cerimônia de colação). Mas, de qualquer forma, foi legal para despedir-me dos alunos que reconheceram o meu trabalho e me homenagearam.

A cerimônia da colação de grau da minha filha foi bonita. Vi aquela pessoinha que brincava comigo no playground, que eu levava ao cinema para ver desenhos animados e que dizia estar com fome de “McDonalds”, subir no palco e lá ficar, altiva, recebendo o canudo, entregando homenagem a uma professora, mandando beijinhos para a torcida que gritava o seu nome (e que era a grande maioria no teatro) e tendo a autonomia para aplaudir quem achasse que merecesse. Firme nas suas convicções. Mas sem perder a meiguice que sempre a caracterizou. Senti-me também colando grau como pai.

É muito interessante essa discussão sobre o papel do pai. Conheço muitas feministas e elas mesmas têm dificuldade de discutir isto de forma propositiva. Isto porque o combate ao machismo exige um discurso mais reativo. Penso que nós, homens contrários ao machismo, temos que redefinir o nosso papel.

Uma feminista amiga minha, nesta busca de um discurso reativo, vivia repetindo aquela discussão de que a mulher tem uma visão mais panorâmica e o homem, mais em profundidade, que ela considera uma perspectiva “obtusa”. Por isto, a mulher tende a ter uma visão de mundo mais holística e multiperspectívica e o homem, mais funcional. A prevalência da lógica funcional no capitalismo fez com que o olhar masculino se transformasse em hegemônico.

Toda a lógica de funcionamento da sociedade é instrumental. O olhar holístico e multiperspectívico é anti-funcional por excelência e, por isto, ele é tolerado, no limite, dentro dos círculos privados. Daí este chavão de que o olhar feminino é mais “humano” e por isto mais adequado ao universo familiar.

Tenho certa dificuldade com nestas definições à priori. Ainda insisto que os comportamentos humanos são produtos de contextos socialmente estruturados. Este olhar feminino é produto de uma experiência societária específica da mulher nesta sociedade. Em outras palavras, os lugares permitidos à mulher é que criaram as ambiências nas quais este tipo de olhar foi consolidado.

Mas não quero entrar nesta discussão por ora. O que pensei neste momento particular da formatura da minha filha que o olhar funcional masculino é necessário, principalmente em se tratando de preparar uma pessoa para o mundo. Há seis anos que resido com minha filha e acompanhei de perto esta sua trajetória no ensino superior. Mesmo antes, preocupava-me o seu futuro. Não apenas o futuro profissional, mas como mulher negra que enfrentaria barreiras de ordem machista e racista além de outras dificuldades típicas de um país subdesenvolvido, eivado de valores conservadores, entre outros. Preocupava-me como manteria sua dignidade e autonomia diante de um mundo que insiste em que os pertencentes aos segmentos subalternizados sejam submissos.

Para isto, foi necessário usar e abusar de recursos que, muitas vezes, fogem dos estereótipos da “macheza”. Saber negociar em muitas situações, ao invés de enfrentar, engolir em seco em determinadas situações, abrir mão de aventuras prazerosas… Tudo isto só é possível quando se tem um compromisso efetivo com o ser pai, exemplo maior de masculinidade. Como ouvi, certa vez em um diálogo de um pai com seu filho no filme “Os donos da rua”, de John Singleton: “fazer um filho, qualquer animal faz; para criar um filho, é preciso ser homem”.

A conquista da minha filha fez-me despertar o orgulho de ser pai (e não apenas progenitor), de ser homem (e não apenas macho) e utilizar todos os atributos masculinos (e não machistas) para ajudá-la a criar o seu próprio caminho. Enfim, a visão funcional masculina tem um papel importantíssimo: construir e edificar coisas, abrir caminhos e trajetórias, tendo discernimento do momento de brigar e de negociar, de falar e ficar em silêncio, de avançar e recuar. O valor de tudo isto está nos frutos: minha filha se formou em Farmácia em um país em que apenas 10% dos que concluem o ensino superior são mulheres negras. Parabéns, Camila.

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8 thoughts on “Ser pai é ser homem

  1. Prezado mestre
    Parabêns pela conquista…afinal e com certeza há todo o mérito dos paiiiisss…
    Com certeza o futuro de sua filha será de muito sucesso!Entretanto tenho que discordar de qeu os “atributos masculinos” a ajudaram a trilhar o melhor caminho…que injustiça! Sou mãe e também proponho escolhas de caminho diariamente ao meu filho…acho que tudo é uma questão de discernimento e um não à superproteção, já que vivemos em um mundo bem cruel!

    Saudades…

    • Oi, Alcenir, saudades de vc. Não quis menosprezar, muito pelo contrário, o papel da mãe na criação dos filhos. Acho que isto não tem discussão. Na verdade, o meu post é meio “clube do bolinha”, direciona-se aos homens que não se responsabilizam pelo seu papel de pais. Eu acho que todo mundo precisa de pai e mãe, os dois se completam – isto independente de viver junto ou não. Sempre digo existe ex-namorado(a) ou ex-marido e ex-esposa, mas não existe ex-filho. Independente da nossa vontade, o enfrentamento do mundo machista pode ser fortalecido quando a referência masculina em casa, o pai, também não for machista. Aí tanto um filho homem ou filha mulher terá em casa uma referência masculina concreta que não é o modelo hegemônico machista que impera na sociedade. Ássim quis chamar a atenção de homens, principalmente aqueles que dizem ser militantes, intelectuais e/ou de esquerda mas que muitas vezes reproduzem os modelos de comportamento machistas nas relações familiares.

  2. João Angelo Giordano diz:

    Mais um belo texto Dennis. Gostei do posicionamento em relação a família, e parabéns a Camila, q tenha uma brilhante carreira.

  3. Paulo Marques diz:

    Olá Professor; entendo muito bem o que a colega Alcenir colocou e me vejo ao lado suas colocações também. Acaba sendo uma situação em que envolve um pai para uma filha e uma mãe para um filho. No final os dois perceberam que as intenções entre todos envolvidos são as melhores possíveis. Vejo isso como a parte rica da discussão.
    Também sou pai e tenho exatamente a preocupação dos dois. Converso diariamente com meus filhos e concordo que não podemos ser apenas progenitor e sim participar o máximo possível da vida deles, percebo que formar pessoas é formar homens; a partir do nascimento dos nossos filhos temos que perceber que vem um grande desafio pela frente e esse desafio é eterno. Sou negro, pobre, criado em periferia, tive uma educação muito rígida por parte do meu pai, nunca conseguiu me ajudar financeiramente em nada por não ter condições mas, a ajuda que me deu moralmente faz com que eu sinta eterna inveja dele. Hoje eu não está mais entre nós,porém, me cobro quase todos os dias e digo que se eu for 30% do que ele foi enquanto pai eu me sinto realizado.
    Outro dia um amigo me disse que em certa ocasião o Edinho, ex- goleiro do Santos Futebol Clube, filho do Pelé abriu a porta de sua residencia para uma pessoa que chegava e por não ter quase nemhum contato disse a sua mãe: O Pelé está aqui. Não que ele precisasse chamá-lo de pai mas ficou evidenciado que não tinham elos de ligação enquanto pai e filho.
    Eu acho bom deixarmos o pensamento no ar e repito: temos que saber a cada dia que formar pessoas é um desafio muito maior do que imaginamos; parabéns a quem consegue!!!!

  4. Romilson Madeira diz:

    Perfeito, meu caro. Combater o machismo, tão presente e tão destrutivo, se passa por entendermos nosso papel, inclusive como pais. Grande lição!
    Forte abraço, Romilson.

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