Direitos Humanos, Preconceito e Racismo, Incomodos

Tragédia no Jardim São Remo


Casas do Riacho Doce são destruídas pelas chuvas

Há oito anos que eu desenvolvo uma atividade de extensão universitária no Jardim São Remo, comunidade que fica próxima ao campus da Universidade de São Paulo na altura da Avenida Corifeu de Azevedo Marques, zona oeste da capital. Produzo, junto com os alunos do primeiro ano de jornalismo da ECA/USP o jornal  Notícias do Jardim São Remo, publicação fundada pelo prof. Manuel Carlos Chaparro em 1994 e a única experiência prática de jornalismo comunitário do curso de Jornalismo da universidade. Trata-se de um jornal mensal, com 1.500 exemplares, dezesseis páginas, distribuído gratuitamente aos moradores da comunidade.

Esta experiência tem sido muito rica para mim e para os meus alunos. Fiz amizades maravilhosas com lideranças desta comunidade, como a Dona Fatinha, que organiza anualmente uma belíssima Festa das Crianças; a Rosângela Costa, grande liderança do Projeto Alavanca, organização não governamental que atua no bairro; o pessoal do Cybernétikos, que disputou o campeonato mundial de break nos EUA neste ano; a Família Gold-Black, meninos aguerridos da cultura hip-hop; Benedito Mariano, que toca um projeto de escolinha de futebol para crianças; Dona Isaura, Laura, os familiares da Cicinha, assassinada brutalmente por um policial em 2007 (e que foi absolvido pela “Justiça”); os jovens Daniel, Vevé (agente comunitário e que conseguiu se formar em História na USP que é tão perto, mas tão longe das possibilidades dos são-remanos), os agentes comunitários de saúde, Baixinho e seu bar que é ponto de encontro do povo do futebol, Pézão, hoje comerciante e antiga liderança comunitária, a fantástica Dona Eva, incansável batalhadora pela melhoria do bairro, o pessoal dos times de futebol, a gostosa pizza da St. Remy, e muito mais gente que fazem parte desta minha vivência.

No domingo passado, dia 27 de fevereiro, as fortes chuvas causaram uma tragédia na área conhecida como Riacho Doce. Casas foram arrastadas pelas águas e cerca de 300 moradores ficaram desabrigados. Muitas casas estão condenadas pela Defesa Civil. E é nessas horas que se vê qual é a política de atendimento da prefeitura de S. Paulo para situações como esta: NADA!

Os desabrigados estão alojados na igreja, no Alavanca e no Circo Escola. Comem na igreja, graças a solidariedade da comunidade que vem doando alimentos, cobertores, fraldas, colchonetes. A Defesa Civil limita-se a interditar as casas, a subprefeitura do Butantã diz que não é com ela, alegando que o terreno é da USP. Interessante que na hora de colocar os relógios de medição de consumo de energia elétrica para cobrar contas e acabar com os gatos, não houve nenhum problema de quem é o terreno, de quem é a propriedade. O Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) forneceu 20 kits de emergência. E a prefeitura ofereceu como alternativa aos desabrigados irem para um albergue destinado a moradores de rua, em Pinheiros.

Estive lá no dia 2 de março, quarta-feira. O cenário é desolador e muito me surpreendi que ninguém tenha se machucado mais gravemente. Conversei com um homem com macacão azul e ele disse: “eu já te conheço!” Imaginei que fosse dos dias que vou lá distribuir o jornal com os alunos, mas ele completou: “Eu já te vi lá na ECA. Eu trabalho como jardineiro lá na faculdade”. Impressioante como estas estratificações do trabalho nas empresas faz a gente não olhar para as pessoas que não trabalham no mesmo estamento que o seu. Aquele homem desabrigado, lutando para ter uma casa é meu colega de trabalho. Tanto quanto aqueles que, em conversas depois da aula, discutem se vão passar as férias em Paris ou em Nova York.

Ver situações como esta chocam. Mas faz a gente olhar para além do nosso umbigo. E perceber que prefeituras reacionárias como esta que nós temos afeta, sim, a vida dos cidadãos. Desrespeita a dignidade de um trabalhador, ainda que ele trabalhe na maior universidade do Brasil. Desumaniza-o ao negar o elementar direito de ter um teto. Humilha-o ao ter que viver de doações de outros, mesmo trabalhando e tendo o seu salário. E faz dar raiva de certo nível da discussão política quando ela acontece dentro dos parâmetros dos conchavos e das negociatas, como esta que diz que o prefeito Kassab está indo para a “centro-esquerda”, e partidos deste espectro, como o PDT, PSB e o PC do B, “namoram” o alcaíde. (clique aqui para ver)  

Fazer jornalismo, fazer política, viver a vida dentro do gabinete desumaniza. É preciso ir para as ruas, para as feiras, mercados, ônibus, falar com Rosangelas, Fatinhas, Marianos, e tantos outros para sentir de verdade as dimensões da tragédia e comédia que compõem a vida.

PARA QUEM QUISER AJUDAR OS DESABRIGADOS DO RIACHO DOCE:

Entrar em contato com o Projeto Alavanca pelo telefone (11) 3766-4423. Doações de alimentos, roupas, cobertores, colchonetes, fraldas, são bem vindas.

OUÇA MATÉRIA DA RÁDIO CBN SOBRE A TRAGÉDIA NP RIACHO DOCE CLICANDO AQUI.

 

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