Observações do cotidiano

Maria


Dona Maria é uma daquelas guerreiras que mantém a simplicidade e a esperteza de falar somente quando é necessário. Enganam-se aqueles que interpretam sua aparente timidez como submissão. Chico Buarque disse que o “malandro assim de viés” e Paulinho da Viola recomendava: “faça como o velho marinheiro que, durante o nevoeiro, leva o barco devagar”. Das pranchas de passadeira retirou o seu sustento, necessário para enfrentar todas as barreiras da sociedade racista brasileira.

O casamento foi um caminho para a grande conquista de formar uma família unida, coesa e que possibilitasse que os novos pretinhos que viessem tivessem outra condição melhor que a sua. Muita luta e muito suor que só eram compensados com a sua fé em um ser supremo, em uma força que fizesse valer a pena todo aquele esforço. Afinal, o mundo não poderia ser apenas feito de maldade e de injustiça, havia algo de bonito que somente algo muito acima da humanidade cheia de falha poderia explicar. Na crença em Deus retirava as forças que eventualmente faltavam quando a batalha era mais dura. Era este Deus que passava os tecidos amassados pelas maldades, assim como ela fazia em outros tempos com as roupas enrugadas pelo uso.

Mas vieram as recompensas, filhos maravilhosos que coloriram a família. Meninos bons, solidários, trabalhadores e que davam a certeza de que valeu a pena tudo aquilo que passou e passava na prancha. Meninos que não deixaram a peteca cair e fizeram vir netos e netas, ousados e ousadas, que foram além daquilo que o ferro de passar roupa ia. Ousaram ir para escolas, colégios, faculdades, bons empregos. Falavam difícil, mas davam a certeza de que a humanidade estava ficando mais bonita.

Ainda quieta, mas sempre observando ao redor, sentia seu corpo fraquejar, mas não a ponto de não curtir uma última festa de aniversário. Junto com os filhos e netos e netas, evidentemente. Em uma sexta feira, na última sexta do mês, aquela que alguns irmãos e irmãs da quimbanda saem as ruas para deixar suas oferendas aos ancestrais em busca de uma vida melhor. Curtiu bastante até se cansar definitivamente e querer mergulhar de vez no Orún. De lá viu as lágrimas daqueles que conviveram, os meninos bons que estão continuando sua jornada, os netos e netas que estão ousando, irmãos, cunhadas, sobrinhos e toda uma massa de gente que nunca deixa sua felicidade guerreira. Dá saudade, mas finalmente agora pode dançar a vontade. Pois ela é Maria, uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta.

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2 thoughts on “Maria

  1. Hélcio Barbosa Junior diz:

    Dennis, Eliete meus primos, primas, tios (quase todos no orun, mas peço licença a todos), tias, sobrinhos,sobrinhas, amigos e amigas…Não é com pesar, mas com alegria, alegria embargada num choro, não de dor mas de uma saudade gostosa…é…saudade gostosa que compartilho com tod@s…agradeço ao universo pela bela conspiração, a conspiração do segredo, o segredo da essência que tod@s recebemos de nosso Criador…Que bom que ela pode ver, acompanhar, sentir, gozar de alegria, das dores também, mas lá sempre firme. Sábias são as suas palavras… lá, não na submissão, mas interioridade dos mais velhos(as)…que na sua saberdoria inspirada, pontuavam quando necessário, consolavam, advertia-nos, enfim, cuidavam e cuidam de nossos passos…Que Oludumaré, Zambi, Olorum, Deus…respeitando a toda a diversidade que é nosso grupo famíliar, sempre ilumine a todos(as)…obrigado pelo carinho, pelo respeito, pela solidariedade…Com certeza ela esta lá no Orun, no céu…alegre, também agradecendo. A poucos é dado o privilégio de ir no mesmo tempo em que aqui chegou…Olurum na sua sapiência presentei-a-nos diariamente é só abrimos os nossos olhos e ver…Com certeza ela passa agora para a categoria de nossos ancenstrais, aumentando nosso axé, nossa força vital, dando ao nosso egbé, ao nosso grupo familiar mais força…acreditamos que não morremos, mas nós nos transformamos, transformamos nessa energia boa, nessa energia propulsora da nossa essência…meus respeitos a todos e a todas nossos e nossas mais velhos(as) e velhas…Que a a força de Olorum se espalhe e fortaleça todos e todas…Que a sagacidade, dinamicidade de Esú contamime a todos(as), que Sangó dê prosperidade, justiça…que Iemojá cuide de seus oris, de suas cabeças, orientando e amparando, que Oxaguiã os proteja com seu escudo e faça a boa guerra a seu favor…. que Obaluaiê afaste de todos e todas as mazelas físicas e espirituais…e que o sorriso de Ibeji continuem a brotar dos seus lábios…
    Obrigado pela existência de todos(as)…
    Hélcio Barbosa Júnior ( Airá Quitanji)
    Cotia, 31 de janeiro de 2011.

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