Incomodos

Nem monge, nem executivo, apenas humano


Estava fazendo minhas caminhadas pela região central de São Paulo anteontem e parei em uma livraria. Desta vez, estava acompanhado de Camila, minha filha que, recentemente, completou 24 anos. Em destaque  na prateleira, o livro “O Monge e o Executivo”, um dos maiores sucessos desta corrente da auto-ajuda. Eu procurava a obra do Maurício Lazzarato, “As revoluções do capitalismo”, da qual li uma bela resenha publicada no site Outras Palavras.

Camila comentou: “nossa, este livro é um saco, como é que pode estar aqui em destaque na prateleira?”. Um amigo meu terapeuta, em conversa, disse que recomendava a pacientes seus esta obra. “É que ela, justificava, faz esta transição de uma perspectiva mais diretiva, típica do executivo de empresas, para uma mais holística, do monge”.

Tenho observado, em conversas de amigos e familiares, este novo modismo do “holismo”. Os mais sofisticados ou que pretendem sê-los, citam o “Ponto de Mutação”, do Capra, como base filosófica. Mas como o discurso científico apenas legitima mas não satisfaz, logo vem a ladainha religiosa, e aí a salvação é o espiritismo kardecista e o Chico Xavier – religião que procura fazer esta ponte entre ciência e religião.

Sou radicalmente contrário e acho um absurdo este tipo de vinculação. Religião e ciência são discursos com bases diferentes, assim como o discurso artístico. A ciência aspira a universalidades com base em teorias e experimentações; a arte é cristalizada no particular e o discurso religioso se baseia nas narrativas míticas – mítico não no sentido de “mentira”, mas da narrativa fechada, cuja universalidade (a religião também aspira a universalidade) está no seu caráter trans-histórico. Por isto, as verdades científicas buscam ser absolutas no seu contexto histório às quais se vincula, as verdades religiosas, nas suas dimensões cosmológicas reconstruídas pelos seus discursos míticos.

Esta é a grande polêmica que existe quando se estuda Jesus Cristo como homem histórico (possível de se fazer dentro do campo científico) ou como ser mítico (só possível dentro da perspectiva religiosa). O filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, gerou muitas polêmicas porque ao carregar nas tintas os suplícios de Jesus Cristo aproximou-o mais da perspectiva histórica e afastou-o da religiosa. A mesma coisa quando se polemiza com a figura de Maria Madalena (exposta brilhantemente na obra de Saramago, “O evangelho segundo Jesus Cristo” e mal e porcamente em “O Código Da Vinci”, de Dan Brown). Já perceberam como os religiosos reagem ante estas polêmicas? “Não se deve discutir isto”,dizem alguns e outros até proíbem os fiéis de lerem tais livros. Como é possível aproximar estas duas dimensões de perspectivas discursivas? Qual discurso que se pretende científico pode “proibir” alguém de ler um livro?

Mas estes discursos que beiram um fundamentalismo arcaico ganham corpo principalmente porque se adequaram a esta ideologia do sucesso, da busca pela vitória que tem um componente extremamente complicado que é ver o semelhante como inimigo ou adversário. Conceitos típicos de determinadas religiões, como “encosto”, “mau olhado”, “obsessores”, “carrego”, entre outros, ganham uma dimensão até maior do que nas suas origens míticas. A religião se transforma, então, em um lugar de proteção das pretensas energias negativas e, por consequência, dos outros. A solidariedade se limita não a busca de uma sociedade em que todos sejam iguais, mas em ajudar os mais necessitados, que perdem sua subjetividade, passam a ser massa de atendidos. Não se cria cumplicidade, a solidariedade vira compaixão ou complacência que convive perfeitamente com este ambiente de disputa acirrada.

O mais grave de tudo isto é que há uma desresponsabilização individual e coletiva do ser humano das consequências dos seus atos – sejam individuais ou coletivos. Você passou mal?  É encosto, não é porque você está estressado, trabalho além da conta, comeu algo ruim ou dormiu mal. Chovem inúmeras teorias explicativas disto. O seu carro foi roubado? Esqueçam todos os problemas sociais da violência na cidade, é com certeza a energia negativa de alguém que atingiu você – porque você não se preparou para tanto.

Ah, mas vão dizer os crédutos exagerados, mas tem coisas que não se explica por estas correspondências. Sim, há coisas que não se explicam. E daí, quem disse que é preciso explicar tudo?

Estou realmente preocupado com este deslocamento fundamentalista silencioso e lento que move a sociedade do antropocentrismo para um teocentrismo múltiplo e que tenta se legitimar por um discurso pretensamente racional-científico. Conheço pessoas que se enfurnaram nisto e noto nelas uma tendência a cada vez mais se “privatizarem” mais, se isolarem em grupos fechados, a ter medo dos outros e dos diferentes. Uma multidão de solitários. Esta situação é propícia para o surgimento de todas as intolerâncias que estamos vendo. É bom ficarmos atentos.

Anúncios
Standard

3 thoughts on “Nem monge, nem executivo, apenas humano

  1. É incrível como a religiosidade virou desculpa para tudo. Não existe mais uma reflexão sobre nossos atos e sim uma tentativa de ” tapar o buraco” com uma justificativa religiosa. Muitas vezes fui censurada ao expor esse ponto de vista diante de pessoas que explicam apenas sob a ótica religiosa os percalços da vida. De racional eu passei a ser taxada como incrédula…

  2. Claudia Costa diz:

    Intolerância e uma carga pesada de individualismo, uma vez que as pessoas, em geral, buscam essas alternativas porque querem se tornar bem sucedidas ou algo parecido. Junto com o individualismo vem a competição dentro do trabalho e tantas vezes a falta de ética. Impõem-se valores. Acredito também que os livros de auto-ajuda são um belo reforço para a adaptação da sociedade ao momento atual ou de controle das consciências humanas, como já dizia Marcuse. Atualmente sofremos pressão absurda no cotidiano para o aumento de produtividade, priorização do trabalho em nossas vidas, trazer para o campo pessoal o que deveria ser traduzido em questionamentos sociais (como você escreve) e por aí vai, além volta desenfreada da relação da relação do êxito/felicidade com aquisição de bens/consumo.
    Tenha certeza, Dennis, esse modismo é bem muito orquestrado.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s