Incomodos

Ética como atitude – último post do ano


Geralmente em final de ano, a gente aproveita parte do tempo livre para dar uma arrumada nas coisas. Resolvi fazer isto nesta semana, jogando papéis velhos fora, selecionando livros para doação para bibliotecas comunitárias, enfim, uma limpada geral nas coisas particulares. É impressionante como a gente acumula papel ainda nestes tempos de informação digitalizada. E tem gente que acha que um dia que os impressos de papel irão acabar…

Entre os livros que dei uma olhada na minha biblioteca, achei um de autoria de Aldo Arantes e Haroldo Lima intitulado “História da Ação Popular – da JUC ao PC do B”, publicado pela Editora Alfa Ômega. O livro está com uma dedicatória de 18 de julho de 1984 com a frase “O amor à vida, ao homem e à liberdade nos move; se preciso for, morreremos por amor“. Neste ano estava no auge da minha militância política no movimento estudantil, no terceiro ano de faculdade e às vésperas de entrar na diretoria da UEE-SP (União Estadual dos Estudantes).

Já disse em outros posts partes desta minha experiência. Hoje, tenho certo distanciamento da atividade política partidária porque considero que os “revolucionários” de hoje se institucionalizaram em demasia e o debate político-ideológico nestas estruturas se transformou em discussões por cargos ou, no limite, em debates para organizar eventos. A liberdade democrática conquistada deveria servir para aprofundarmos ainda mais o debate ideológico, mas quando vejo um discurso abertamente conservador pautar as eleições presidenciais recentes e a dificuldade de eleger uma mulher para presidente – tendo que abrir mão, por exemplo, de uma discussão mais progressista sobre a legalização do aborto – vejo que a liberdade está sendo mal aproveitada, como aquele adolescente que diante da possibilidade de autonomia se assusta e volta correndo para o colo do pai e da mãe.

Mas, ao contrário dos frustrados, não considero que a minha experiência foi um arroubo inconsequente de juventude e nem tampouco uma perda de tempo, como alguns conhecidos meus tentam passar. Pelo contrário, foi um aprendizado inesquecível. Um dos valores mais importantes que apreendi nesta experiência foi a ética nas relações. Uma ética bem distinta de práticas normativas ou moralizantes.

Uma ética centrada na origem da própria palavra, ethos, ser, isto é, uma forma de ser ou pelo menos uma forma do devir a ser, aquilo que espero que todos sejam. A ética que defendo não é premida por uma ordem moralizante de uma religião ou por respeito a um código por medo de punição, mas por acreditar em uma sociedade futura em que tais relações sejam a sua base. Uma ética centrada em uma atitude revolucionária, mais que o receituário de dogmas.

Estava falando sobre isto, tempos atrás, com uma pessoa que tive um relacionamento mais próximo. Falei com ela que defendia a “ética e não a moral”, mostrando a diferença entre um comportamento centrado em valores e outro, centrado em normas religiosas. Ela me disse: “não sei qual é a diferença, eu por exemplo nunca falei para colegas meus dos problemas de amigas suas”. Pensei. Ao dizer isto como se fosse uma concessão a mim, significava que ela acha natural falar dos outros. Eu também, no lugar dela, não falaria mas não por uma concessão mas sim por respeito à privacidade do outro. A atitude é a mesma, mas por razões distintas.

Quando saí da Unimep em 2007, professores que estavam contra mim tentaram espalhar boatos entre os alunos de que eu faltava às aulas na universidade para dar aulas em outra. Isto, além de ser mentira, demonstrava o padrão ético de pessoas que não sabem levar a divergência para o campo das opiniões, talvez porque não tenham capacidade para tanto. Entre dezembro de 2006 e janeiro de 2007 no meu blog antigo (clique aqui para ver) expressei as minhas divergências sem citar nem um nome, apesar das atitudes terem sujeitos que as praticaram. Mas a idéia é não atacar pessoas e sim criticar comportamentos, embora dispusesse de um arsenal de comportamentos pessoais condenáveis de pessoas que me atacaram e ainda atacam, como assédio moral e sexual a professores e alunos(as), carreirismo explícito (e dito na minha frente), roubo de idéias alheias, machismo, preconceito racial e homofobia, entre outros. Não vou negar aqui que coça a língua para denunciar, mas considero que isto rebaixa a tal ponto o nível da discussão que acabará por construir um tipo de relacionamento ruim, perverso, destrutivo bem longe daquilo que defendo como utopia.

Como tudo na vida, isto traz conflitos internos e externos. Toda atitude é fruto de uma decisão e tal decisão tem um preço a pagar. Um psicólogo amigo meu diz: “Você pode ser feliz sendo hetero ou homossexual, monogâmico ou poligâmico, mas qualquer opção tem um preço a pagar – é preciso pesar a balança para ver se a decisão que vc toma vale a pena!”

Qual preço a pagar de ter uma atitude ética revolucionária? Primeiro, é uma certa solidão, principalmente pelo desconforto causado por um certo pragmatismo medíocre que reina nas pessoas, inclusive, entre aqueles que se julgam acima da média, como intelectuais e militantes de esquerda (cito estes dois pois transito bem nestas duas esferas). Vou a eventos, festas, cerimônias e em determinados momentos fico isolado e sem vontade de conversar com ninguém pois bate este distanciamento.

Segundo, é um estranhamento causado nas relações pessoais, desde profissionais até de amizade, com pessoas ficando a espreita das atitudes que tomo, como se elas gerassem certa desconfiança. Isto porque elas não se pautam por uma fidelidade canina a pessoas ou a possibilidades pessoais, mas a um universo de valores. A coisa piora porque reconheço uma certa dificuldade em expressar claramente estes valores que defendo, falta-me uma capacidade melhor de dialogar.

Mas não consigo pensar em outra possibilidade de relacionamento em qualquer nível que não seja este. E debito estes valores a minha experiência da militância. O romantismo das nossas atitudes naquele momento se transfigurou em uma forma de ser que insiste em existir nestes tempos de mediocre pragmatismo. Fazer o que? Entre tantos espinhos, existem pessoas interessantes e é preciso fazer como o malandro do Chico Buarque, andar de viés. Para não bater a cara.

Feliz 2011 para todos.

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