Direitos Humanos, Preconceito e Racismo, Observações do cotidiano

Anti-messagem de final de ano


Este período de final de ano é um momento que as vezes enche o saco. Trânsito na cidade, as pessoas ficam ansiosas não sei para que, além do tempo estar contribuindo para piorar ainda mais os congestionamentos com chuvas torrenciais. Como sou professor, em geral, no final de ano fico extremamente cansado pois é o acúmulo de um ano de trabalho. E aí a gente fica no final do ano tentando dar conta daqueles prazos definidos em função das burocracias e não de critérios pedagógicos. Max Weber disse certa vez que a burocracia tinha a função de facilitar e agilizar a produção no capitalismo. Mas parece que, particularmente no serviço público, a burocracia tem a função de dificultar. Talvez para justificar os enormes gastos que se tem com este tipo de atividade que, se fosse mais simplificada e objetiva, tornaria desnecessário muito funcionário (por isto que estes é que são os mais ardorosos defensores da burocracia).

E as festas de final de ano de serviço, aquelas que juntam pessoas que passaram o ano todo tentando te puxar o tapete e, no clima natalino, desejam boas festas? De repente, você que o ano todo foi taxado de mau humorado, antipático, arrogante, irresponsável, entre outros adjetivos menos nobres, se transforma em uma pessoa “sincera”, “determinada”, “séria”, “tem o seu jeito de ser”, e outros eufemismos que tangenciam elogios.

Natal é uma festa cristã, eu não sou cristão, mas há muitos indícios de que Jesus Cristo não nasceu neste período. Até porque é uma época fria em Belém e ele morreria congelado em uma choupana. Mas por conveniência dos poderosos de então, determinou-se que fosse 25 de dezembro. Tenho muitos amigos católicos e evangélicos fervorosos, espíritas kardecistas na minha família, todos que respeito muito, principalmente a  adesão sincera a estes preceitos religiosos.  Mas o que me incomoda é a ditadura do discurso único do cristianismo que impede um pensamento radicalmente livre, já que nestes momentos sempre pedem para a gente “refletir sobre a vida”. 

O cristianismo foi o principal responsável pelo machismo no mundo, quando masculinizou todas as crenças religiosas – na Europa antiga, várias das religiões chamadas de “pagãs” tinham as mulheres como sacerdotisas e o sagrado era feminino. O mito de Adão e Eva foi cruel para as mulheres. O cristianismo impôs para as mulheres o dilema de ser Eva, a pecadora – porque buscou o prazer sexual – ou Maria, a virtuosa – porque concebeu Cristo virgem. Paulo, aquele que dizia que “ainda que falasse a língua dos homens ou dos anjos” preconizava que a mulher deveria ir a Igreja somente acompanhada pelo marido. Estamos já me pleno século XXI e terceiro milênio e ainda a mulher sofre uma série de preconceitos morais que a obriga a enfrentar dilemas vários no que toca a sua vida afetiva e sexual.

O cristianismo foi o responsável pela escravização de africanos e pelo genocídio dos povos originários da América a medida que estes não eram considerados humanos por não terem “alma” (= não eram cristãos). As tradições sagradas africanas até hoje são consideradas como seitas satânicas e sofrem bárbara discriminação. O holocausto judeu é reconhecido mundialmente e as atrocidades sofridas pelo povo judaico tem a condenação quase que unânime no mundo. Mas e o genocídio africano e dos povos originários da América? E os aborígenes na Oceania? E os ciganos que também foram perseguidos pelos nazistas na II Guerra Mundial? Estes holocaustos por acaso são menores porque se tratam de povos fora do circuito das tradições de matriz judaico-cristã?

Fala-se em tolerância no Natal. O melhor seria dizer respeito e diálogo. Dialogar radicalmente é relativizar as verdades que se acredita serem absolutas. É dar o direito ao outro de também ter a possibilidade de ter razão. É possível fazer isto dentro dos dogmas do cristianismo? Não, porque esta tradição é condutivista – tem um referencial mítico, fechado, de bondade, perfeição, traduzido em códigos morais e a condição humana deve ser conduzida para este referencial. Por isto que o diálogo é um esforço difícil para esta tradição que, no limite, tolera outras concepções mas não dialoga.

A concepção sagrada de povos indígenas da região do Alto Xingu parte do pressuposto do “multinaturalismo” – todos os seres vivos (friso, vivos e não apenas os seres humanos ou mesmo apenas os seres animais) tem uma perspectiva de vida. Assim, o que diferencia o ser humano de uma planta ou de um outro animal é a diferença de perspectiva de olhar sobre o mundo. Cada uma destas perspectivas formam uma natureza própria, e por isto o universo é composto por um multinaturalismo. Internamente aos seres humanos, privilegia-se a capacidade e competência de mediação, isto é, os chefes de tribo são aqueles que são mais capazes em mediar os conflitos interpessoais. O diálogo, então, é a base desta concepção de sacralidade.

Já para boa parte das tradições de matriz africana, o sagrado é uma dimensão de energia que constrói e reconstrói o mundo permanentemente. É uma visão radicalmente processual em que as diversas manifestações da sacralidade representadas na dimensão do Orun – orixás, voduns ou inquices – se realizam na permanente construção/reconstrução do mundo no Ayiê – as ações humanas são as protagonistas disto. Os orixás fazem coisas, os seres humanos também fazem e é deste fazer-agir que o mundo vai permanentemente sendo feito.

Diálogo ou monólogo? Agir ou paralisia?

O mundo hegemonizado por  tradições que dão sustentação ao regime de exploração do ser humano pelo ser humano chega a um momento em que dilemas não tem respostas: miséria, violência, destruição ambiental… Aliás, a resposta é sempre mais violência, repressão – vide o recente caso da invasão militar dos morros do Rio de Janeiro. Por isto, este clima de final de ano é permeado de hipocrisia. Afinal, respeitar o outro significa questionar toda esta ordem que a gente vive – inclusive os princípios religiosos que marcam estas festividades natalinas.

Esta é uma reflexão que faço, radicalmente livre da ditadura do pensamento único cristão. Nada contra os praticantes da religião, mas já que estamos em um momento de reflexão e de respeito ao próximo, estou provocando para tanto.

De qualquer forma, sempre é bom ter uma folga no trabalho para poder rever as pessoas que a gente gosta. Ou mesmo descansar um pouco. Curtam o final de ano da forma que puderem. Inté.

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5 thoughts on “Anti-messagem de final de ano

  1. verinha Nunes Santana diz:

    Meu heroi iorubá academico!
    Sinto tantas saudades de conviver com essa sabedoria boêmia!!!!
    E já uqe começamos a falar de boemia…
    Aproveito esse momento para fazer um convite… Não exatamente para uma festa de natal, até porque já passei pelo pré-natal e já estou de rebento novo em casa, e como tambem não sou nada católica, vamos aproveitar o momento para fazer festa, porque o que vale nessa vida é isso mesmo a celebração pela vida!Como eu não sei quando foi que o Jesus nasceu, vamos comemorar o nascimento da Alice, minha mais nova produção, quer dizer reprodução… E o nascimento do João!
    Amanhã, 23 de dezembro festinha no centro, vamos dar uma festa super animada, ao som de muito afro dance black music, sambinhas animadissimos, e muita cachaça! Vamos beber Jesus, que ele vai gostar!
    Rua Rego Freitas, 501, apto 92!
    Venha e traga quem vc quiser!
    beijoca com saudades
    Verinha

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