Direitos Humanos, Preconceito e Racismo

Rio: liberdade para quem e para que?


Moradores do Morro do Alemão correndo da troca de tiros na invasão das tropas no domingo

Um clima de alívio paira no noticiário sobre a crise no Rio de Janeiro. Afinal, aquilo que mais incomodava as elites de fora do Rio de Janeiro: a criminalidade organizada que desfocou aquela visão idílica de morro e periferia cariocas demonstrando o imenso problema social com crianças e adolescentes indo para o tráfico por , muitas vezes, ser a única oportunidade de uma renda razoável. A pobreza no Rio de Janeiro não tem apenas aquela visão romântica de negros vivendo na pobreza, tomando cachaça e fazendo sambas lindos para a turma de visitantes se deliciarem. O Rio de Janeiro continua lindo, mas não é apenas formado por pessoas tocando um violãozinho em um banquinho tomando uma cervejinha na praia de Ipanema. E os fora da lei não são aqueles folclóricos donos de bancas de jogo do bicho e patronos de escolas de samba.

Este era e é o Rio sonhado pelas elites em todos os lugares do Brasil: pobres e malandros folclóricos inofensivos que despertam a curiosidade e divertem os turistas. O violento crime organizado impedia, a todo custo, que este sonho continuasse. Como moleques mal criados, faziam uma tremenda bagunça, queimando ônibus, incendiando carros, enfrentando a polícia e tomando conta de comunidades. Demonstraram o seu poder, nem a Globo foi respeitada, com o assassinato do repórter Tim Lopes, após uma reportagem que denunciava a prostituição infantil nos bailes funk.

Como enfrentar isto? Abnegados cidadãos como José Junior, do Afroreggae; Caio Ferraz, fundador da Casa do Vigário Geral; André Fernandes, da Agência Nacional de Favelas; pessoal do portal Viva Favela; pastor Caio Fábio; e tantos outros, enxergam na necessidade de se proporcionar novas oportunidades para os jovens das favelas o caminho para o enfrentamento. Mas isto significa incluir pessoas, trazer mais gente para usufruir as belezas de Ipanema, Copacabana e Barra da Tijuca – já imaginou pessoas pretas passeando pela Avenida das Américas, Vieira Souto ou ainda desfrutando da paisagem da Avenida Sernambetiba. É permitir que esta turma de pele mais escura desça além dos dias permitidos – quando vão fazer faxina na casa dos bacanas ou para desfilar nas escolas de samba no Carnaval. Por isto, estas personalidades que lutam há muito tempo para mudar a situação das comunidades carentes do Rio de Janeiro não aparecem na cobertura midiática. Sequer são ouvidos nas políticas de contenção da violência pelas autoridades. O protagonismo central são os dublês de Tropa de Elite e o arquétipo de herói Capitão Nascimento.

Cenas de policiais, soldados das Forças Armadas, tanques militares, etc, foram mostrados a exaustão como a única e derradeira solução para o problema da violência no Rio de Janeiro. A Globo, triunfante e vingada, exibia a prisão de um dos participantes do assassinato de Tim Lopes, erigido pela Vênus Platinada como o mártir desta batalha. Evandro Silva, do Afroreggae, morto em circunstâncias estranhas no ano passado; o sociólogo Caio Ferraz, até hoje exilado por ter sofrido ameaças em função do seu trabalho social em Vigário Geral… Nenhuma palavra! O povo da favela não tem nome, não tem identidade, é uma massa que aparece apenas para ilustrar as imagens de situação de “terrorismo” no Rio.

Enquanto a elite carioca desfrutava de um bom domingo nas praias de Búzios, a tropa toda fazia a limpeza e deixando claro o lugar de cada um. Todos puderam ver pela televisão e a bandeira do Brasil e do Rio de Janeiro tremulava no alto do Complexo do Alemão. O Fluminense ganhou do Palmeiras e pode ser campeão. O Flamengo perdeu mas escapou do rebaixamento. As Olimpíadas serão no Rio de Janeiro e o Maracanã vai ver a final da Copa do Mundo de 2014. Tim Lopes foi vingado. Chamado para mediar o conflito, José Junior não conseguia esconder o seu semblante de tristeza e desalento. Os traficantes foram desarticulados, dizem. E os meninos, meninas, homens, mulheres do morro? Como dizem as autoridades e a mídia, estão livres… para continuar sua vida de miséria sob a proteção dos soldados da Tropa de Elite.

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2 thoughts on “Rio: liberdade para quem e para que?

  1. Uma política legal que está sendo implantada pós ocupação da polícia é a retomada de serviços públicos, como de limpeza.
    A mídia, como sempre, tenta espetacularizar os acontecimentos a partir do seu ponto de vista, mas isso é o que menos importa, porque o que está acontecendo no Rio é histórico… e por isso mesmo é necessário ficar atento aos abusos de poder e as próximas ações das “autoridades”… ações que são tão importantes quanto a ocupação.

  2. Maíra diz:

    Adorei o texto!
    Porque foi um dos únicos , em meio a tantos propagados pela mídia, que falou do que realmente se trata a crise de violência no Rio. Faltam políticas que permitam acesso definitivo à cidadania: Moradia, saúde, educação e emprego. Ou seja, que resolvam um problema histórico de exclusão de negros e pobres. Ao invés disso, Estado e redes midiáticas promovem uma espécie de “vingança” contra a pobreza, apoiada pelo caveirão, PM , Polícia Civil e forças armadas.
    Para Júbilo das elites e das camadas médias. Pão e circo para todos!

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