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A beleza de São Paulo é seu caráter jacobino


Estudante de Direito da FMU pede pelo Twitter que os nordestinos sejam afogados.

Nasci em São Paulo, no bairro da Bela Vista. Meus pais também são paulistas – o meu pai é da cidade de Taquaritinga, interior de São Paulo; a minha mãe, da capital. Meus avós são todos do interior do estado. Como paulista, sinto-me na obrigação de repudiar veementemente a fala da tal estudante de direito (sic) da FMU, Mayara Petruso, bem como vários dos seus seguidores com estes discursos racistas, nazistas, reacionários contra os nordestinos. Não considero isto apenas como um desabafo, uma dor de cotovelo pela derrota do candidato do PSDB na última eleição presidencial. É um sentimento que vem aflorando graças ao próprio tom da campanha do candidato tucano que optou em abraçar este discurso, a parcela da grande mídia – não apenas os raivosos direitistas da revista Veja, como aquelas criaturas Reinaldo Azevedo e Diogo Maynardi, entre outros – mas também aqueles que se posam de mais “finos”, como certos colunistas da Folha e do Estadão (lembram-se da tal Catanhêde e a “massa cheirosa” do PSDB?).

Meu irmão, Emerson, citou uma fala do candidato José Serra em um comício que dizia que enquanto Lula governa para os pobres, ele governaria para os “cidadãos”. Estamos retrocedendo à ágora de Atenas antiga – somente eram cidadãos os homens livres nascidos em Atenas, ficando de fora, as mulheres (Dilma não teria chance lá), os de fora de Atenas (Lula também não) e os escravos (não haveria partido de trabalhador lá). No fundo, é isto que parcela da elite paulista quer.

A beleza de São Paulo é uma modernidade jacobina. A destruição criadora da “força da grana que ergue e destrói coisas belas” se materializa nas greves operárias do início do século XX, protagonizada por muitos imigrantes italianos e espanhóis. Bella Ciao! Mas antes, com o grande jornalista e advogado Luiz Gama, baiano, que ousou freqüentar os bancos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e travou intensa luta abolicionista como jurista e poeta. “Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença,o estigma de um crime. Mas nossos críticos se esquecem que essa cor é a origem da riqueza de milhares de ladrões que nos insultam; que essa cor convencional da escravidão, tão semelhante à da terra, abriga sob sua superfície escura, vulcões, onde arde o fogo sagrado da liberdade.” Palavras que iluminaram as várias vozes públicas da cidade.

Mais tarde, em 1922, um paulistano arrisca-se da Rua Aurora com a Paulicéia Desvairada e o herói sem nenhum caráter – Macunaíma. Estou falando de Mário de Andrade que em uma conferência para estudantes da Faculdade de Direito do Lgo. São Francisco no ano de 1942 disse: ” Façam ou se recusem a fazer arte, ciências, ofícios. Mas não fiquem apenas nisto, espiões da vida, camuflados em técnicos de vida, espiando a multidão passar. Marchem com as multidões”.

Maluco o tal de Solano Trindade. Pernambucano, rodou pelo Rio e veio parar pelas bandas de São Paulo nos anos 40, na cidade de Embu, onde lutou pela construção do Teatro Popular do Negro. Um militante negro, anti-racista e pela cultura popular. Poeta, recitou “Sou Negro /Meus avós foram queimados /pelo sol da África /minh’alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs /…/Na minh’alma ficou /o samba /o batuque/o bamboleio /e o desejo de libertação…”

O pernambucano em São Paulo foi homenageado por um paulista de São João da Boa Vista em 1976, o grande sambista Geraldo Filme, que deu o título do carnaval paulistano ao Vai-Vai : Solano vento forte africano/nome que o menino recebeu/lá no Recife Pernambuco/cidade que o menino nasceu/moleque de rua/viu carnaval/o pregão da quituteira/e lapinhas no natal/ literatura de cordel/e firmou um ideal/levantar uma bandeira/pela arte popular/canta meu povo vamos cantar/em homenagem ao poeta popular/Vai-Vai é povo está na rua/Saudoso poeta a noite é sua

Nos anos 60, os palcos do teatro Record em São Paulo receberam baianos (sim, nordestinos!) que ousaram misturar guitarra com orquestra sinfônica e mais berimbau naquilo que ficou conhecido como Tropicália. Na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, um grupo de intelectuais, entre eles Florestan Fernandes, Otávio Ianni, Oracy Nogueira, Fernando Henrique Cardoso debruçam-se sobre as teorias da sociologia e da antropologia para entender as relações raciais no Brasil desmentindo no campo teórico a idéia da democracia racial.

Anos 70, tempos de batalha contra a ditadura, com o baiano Carlos Marighella, o carioca Carlos Lamarca, o judeu-croata Vladimir Herzog deram suas vidas pela liberdade enfrentando a brutal repressão política. Por sua vez, os paulistas Aurora Maria, Helenira Rezende e Osvaldo Orlando da Costa (Osvaldão) batalharam e foram assassinados em outros locais do Brasil, a primeira no Rio de Janeiro e os dois últimos, jovens negros, na Guerrilha do Araguaia.

É esta modernidade jacobina que faz a beleza de São Paulo. Não são as grades dos condomínios fechados e dos vidros de carro escurecidos e isolados do mundo, piorando a poluição do ar e o trânsito da cidade. Mas é quando São Paulo vira lugar de todos, que permite que todas estas pessoas deixem suas marcas e façam o tempo andar.

Um mineiro de Três Corações parou em Santos e foi protagonista da mais lendária camisa e mítica equipe do futebol brasileiro, o Santos F.C de Pelé. Gente de todas as partes lotam as arquibancadas do estádio do Pacaembu e são responsáveis por um fenômeno único de uma torcida que tem time (e não um time com torcida) que é o Corinthians.

E o forró corre solto, o dendê está do lado do molho da macarronada, desde os tempos em que trabalhadores negros da roça ficavam no Largo da Banana fazendo um batuque, o samba de São Paulo segue firme no pedaço. Nas periferias, não há só bandidos, como diz o Datena, mas artistas de rua com os grafites, breaks e o hip-hop. Um milhão de pessoas estiveram no Anhangabaú para gritar Diretas Já em 1984.

Um pouco antes, no meio dos anos 70, um nordestino que tinha parado pelas bandas de São Bernardo começava sua carreira de sindicalista para virar o maior líder popular da história do Brasil e nosso presidente atual. É esta São Paulo que me orgulho, que todos se orgulham. A beleza está neste seu caos, nesta passagem, neste grande boteco onde se ouve muitas vozes mas todos podem ficar a vontade. Mais que terra da oportunidade, a terra da luta pelo novo, a terra do pleno exercício da liberdade de ideais.

Sinto muito, Mayara e seguidores, vocês não representam isto. Se há alguma coisa em São Paulo que parece com vocês é o fedor e a poluição do Rio Tietê. Não sujem mais nossa cidade.

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5 thoughts on “A beleza de São Paulo é seu caráter jacobino

  1. Lavou a alma, Dennis. Deu uma bela aula de coerência ilustrada pela História. Quem trabalha com educação deve sofrer mais, pois consegue perceber de longe certas índoles retorcidas. Você disse tudo aquilo que eu quis dizer num desabafo tempos atrás mas não cheguei a tal eficiência: esgasguei-me de raiva antes. Parabéns!

  2. edison izipetto diz:

    Eu temo pelos bolivianos. O tal candidato, entre outros absurdos, disse que a culpa do tráfico era da Bolívia. Com esses raivosos incitando a discórdia e o separatismo, temo que passem a discriminar ainda mais os bolivianos que já são vítimas de trabalho escravo por aqui, vítimas nas escolas e “culpados” por cultivarem a coca. Começa sempre assim o fascismo. Que vença o bom senso.

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