Comunicação e Jornalismo, Cultura Popular, Observações do cotidiano

Compreensões diferentes


Na terça-feira passada, tinha uma reunião com um adovgado para tratar de um problema particular. Marcamos as 8h da manhã, mas ele atrasou. Como o escritório estava fechado, resolvi matar o tempo em um boteco tomando um café. Meu irmão Emerson fala, sabiamente, que o boteco é um lugar onde as grandes sabedorias populares se expressam. Quer conhecer o povo, entre num boteco e ande de ônibus.

Achei um daqueles do tipo que tem um pano-único: o pano serve para limpar a mão,  para passar no balcão e enxugar o copo, além de permanecer pendurado no ombro do atendente quando ele está servindo ou pegando o dinheiro. Estes são os de qualidade, são os que se rebelam contra a assepsia dos McDonald’s da vida. Viva o pano único.

O rádio estava ligado e estava passando a propaganda eleitoral. Além de mim, estava também um outro sujeito, com cara de que estava aguardando o horário para ir trabalhar. Tanto eu como ele tomávamos um café preto. O cara do boteco falou: “Esse tal de Serra vai perder feio”.

O outro cara concordou. “Pois é, ele não diz o que vai fazer, só fica falando mal do Lula”.

O cara do boteco continuou: “Só fala mal do Lula quem não tá a fim de trabalhar. O homem aumentou os empregos, tem emprego aí sobrando, eu vejo no jornal, dá para financiar carro, casa. Só vagabundo não gosta do Lula”, concluiu.

Vendo aquela conversa, perguntei, só para provocar: “E o que vocês acham desta coisa da quebra do sigilo da filha dele?”

O botequeiro pensou e respondeu: “Pô, se ele tá bravo é porque está escondendo alguma coisa. Se alguém quiser ver minhas contas, não tenho nada a esconder.” O outro: “É isto mesmo, o cara tá com medo de que descubram coisas erradas na conta dele”.

Para finalizar, perguntei sobre as denúncias de corrupção na Casa Civil. Ambos: “Ora, em qual governo não tem corrupção?”

Só para mostrar a discrepância do que a mídia hegemônica passa e que o povo pensa:

– Para a mídia, Lula valoriza a vagabundagem com o bolsa família. Para os caras do boteco, Lula possibilitou mais trabalho e mais respeito ao trabalhador (“só vagabundo não gosta do Lula”).

– Para a mídia, a denúncia da violação do sigilo é uma atitude que fere as liberdades individuais. Para os homens do bar, quem fala isto está com medo de descobrirem coisas erradas.

– Para a mídia, o governo Lula é um governo corrupto. Para os caras do lugar do pano único, corrupção faz parte da natureza do governo.

Será que dá para entender porque o atual presidente bate recordes de popularidade a despeito da oposição quase que sistemática que a mídia hegemônica faz? Não é um problema de má informação como alguns jornalistas dizem, mas de compreensões diferentes da realidade.

Sempre digo aos meus alunos de jornalismo: quer ser um bom jornalista no Brasil, ande de ônibus, frequente botecos, vá a feiras, ande pela rua.

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