Observações do cotidiano

Bela Vista


O domingo amanhece com um sol meio pálido que tenta atravessar os vários prédios que compõem a paisagem da Bela Vista. Por volta das 10h da manhã, um caminhão anuncia a venda de doces caseiros tocando estridentemente uma música antiga do Xou da Xuxa – “doce, doce, doce, a vida é um doce… – ao lado de carrinhos de mão improvisados vendendo churrasquinhos. Em uma casa azul grande onde moram várias famílias, algumas crianças saem da toca e começam uma brincadeira de esconde-esconde. Figuras exóticas do sexo masculino, recostadas em muradas, observam o local com atenção, alguns tragando cigarros que soltam uma fumaça muito fedida.

Quando o sol fica mais forte, uma mulher sai da casa azul vestida, que ousadia, de biquini. Sem maiores rodeios, atravessa a rua, coloca uma cadeira de praia perto do portão de uma firma e fica tomando sol na praia do Bixiga. Chama um homem de meia idade, provavelmente o seu companheiro, para jogar água de um balde colocado ao lado da cadeira. Assim se refresca. O som é garantido pelo tampo do porta-malas levantado de um Fiat Uno preto parado perto. O ritmo é um só: rebolation. A música alta faz frente ao caminhão de doces que, depois de vender uma quantidade razoável para crianças que brincavam no entorno, resolve ir embora tocando a música da Xuxa.

Dois jovens de cócoras saboreiam um charutão de cannabis tranquilamente, sem se importar com uma viatura da polícia que passa vagarosamente pela rua, parecendo mais uma família a passeio que bravos servidores públicos trabalhando. Cochicham um ao outro. Perto deles, um grupo de meninas, jovens, bonitas, exibem o seu corpo com um top apertado e um xortinho enfiado na bunda combinando o encontro para a noite no ensaio da Vai-Vai. O cabelereiro gay passa por elas com o pacote de pãozinho frances e faz um cumprimento, não sem antes de reparar que os cabelos delas estão precisando de um tratamento, “você está com cara de baranga, minha santa”, comentário este respondido com risos delas até o momento em que ele entra no prédio quando a simpatia dá lugar ao verdadeiro pensamento expresso num “vai se foder!”.

Um grupo de jovens saem tocando tambores de um outro casarão antigo, sede de uma ONG, todos vestidos. Meninos pobres institucionalizados, a molecagem controlada pela disciplina da educação emancipadora. Tocam o tambor e, em respeito, o som do Fiat abaixa o volume. Várias pessoas arriscam a colocar suas caras para fora das janelas dos apartamentos, algumas usando bobes, outras descabeladas. Dura em torno de 15 minutos a apresentação improvisada dos meninos que, satisfeitos com o sucesso, entram novamente na sede da ONG para guardar os instrumentos. Um pequeno que corria entre os carros estacionados na brincadeira de esconde-esconde para e olha encantado para aqueles meninos.

Por volta das 11h30, os que curtiram a noite de sábado descem dos apartamentos para garantir o café da manhã. Caras de cansados mas também satisfeitos ou pelo programa de ontem ou por uma noite de amor maravilhosa. Os mais “famílias” já estão mais adiantados, mulheres voltam com sacolas das mercearias com a comida do almoço de domingo. Os bares começam a receber os primeiros frequentadores, alguns trajando a camisa do Corinthians e outros do São Paulo, e até os sem camisa – já passava do meio dia e as garrafas de cerveja começam a tomar conta dos balcões. As teves ligadas já esquentavam o clima do futebol de domingo com os vários comentaristas fazendo suas previsões e as reportagens inúteis com jogadores que exprimem suas falas ensaiadas e recheadas de clichês.

Um rapaz forte, negro, cabeça raspada, passa pelo boteco e toma uma Coca-Cola, no seu exercício diário de rejeitar o álcool que tanto mal lhe fez em outros tempos. Arrisca umas tacadas no bilhar, olha para a televisão e passa menos de meia hora naquele ambiente, indo para a casa para saborear o macarrão dominical. O seu tio, já na casa dos 70 anos, cabelos e barba branca, volta arrumadinho do almoço que fez mais cedo para continuar seu turno de trabalho como porteiro de uma cantina na rua 13 de Maio. Preocupa-o o pagamento do aluguel que está atrasado da casa que mora que pertence a mesma dona da mercearia onde o pão nosso de cada dia não é dado por ninguém mas comprado. Problemas, problemas que são dissipados com a expectativa de começar o ensaio na bateria da Vai Vai naquele mesmo domingo, quando samba enredo para o próximo ano será escolhido. Sua tia-avó, aposentada, não vê a hora de ajudar nas costuras da fantasia pois como ela mesma diz, “sem isso, a vida fica muito sem graça”.

As ruas esvaziam-se por volta das quatro da tarde, quando a maioria ou está na soneca pós almoço ou curtindo o futebol da TV. Movimento só nos botecos ou um carro ou outro que está de passagem. Alguns casais de namorados saem para curtir o final de tarde de domingo, Mais a noite o movimento cresce um pouco com o pessoal indo para a escola de samba e alguns indo para a missa de domingo. De diversas formas, todos tentando usar a dádiva da vida que nós, humanos, temos para fazer alguma coisa. De qualquer forma, não deixam de construir uma bela vista.

A noite na Bela Vista

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