Observações do cotidiano

Avenida Paulista


Estes meios de feriados prolongados são muito estranhos – alguns trabalham (e, em geral, com má vontade), outros emendam e a cidade fica meio termo. Para completar, hoje o tempo está no limbo – depois de muitos dias de calor a pino, o tempo fechou, nuvens escuras anunciam garoa que não cai. Neste meio termo, pela manhã decidi fazer a caminhada diária, parte da minha eterna e difícil luta contra o colesterol. Ousei e fui até a Avenida Paulista, ditos por muitos como o cartão postal da cidade de São Paulo.

Nunca gostei muito da Avenida Paulista. Andar de carro é um saco porque é trânsito o dia todo. Andar a pé não é mais animador pois você disputa o espaço da calçada com carros invadindo as entradas de garagem, pessoas apressadas andando como antas (não porque sejam burras mas porque se recusam a desviar da sua trajetória como os simpáticos mamíferos) e, ainda por cima, você não consegue identificar os nomes das ruas. Mas como era uma caminhada sem compromisso e a cidade estava a meia boca por conta do meio feriado, resolvi arriscar.

Entendo porque a Paulista é símbolo de São Paulo. Outrora fora o local onde estavam as mansões dos paulistas quatrocentões, os barões do café. Hoje, as mansões deram lugar aos arranha-céus das maiores instituições financeiras do país, na sede das maiores entidades representativas do empresariado brasileiro (FCESP e FIESP) e vários escritórios de empresas de apoio ao grande capital. A Paulista é um exemplo do hibridismo paulistano: descendo à direita (para quem vai no sentido Consolação) você desce às profundezas da boca do lixo, em direção ao centro; do lado esquerdo, a descida é mais ascendente, indo em direção aos Jardins. A Paulista é a fronteira entre o lixo e o luxo. Traduz ambas as partes no cinzento das suas calçadas e também da roupa da maioria dos seus transeuntes (interessante como a maioria das pessoas que vagam pela Paulista usa roupas em tons de cinza). Tem um tom acinzentado os vidros fumês dos edifícios, numa estranha opção arquitetônica que obriga os escritórios a usarem luz artificial o dia todo bem como ar condicionado em um país de clima tropical. A paisagem cinza se completa com o tempo nublado de hoje.

As bancas de jornais combinam a imensa oferta de produtos da indústria cultural. Jornais com manchetes contra o PT, revistas vendendo estilos de vida e de consumo para todos os gostos dividem espaço com pílulas de beaux arts – obras de Chochudowsky, Nietszche, Marx, tragédias gregas clássicas, além de cigarros da Souza Cruz e charutos cubanos. No Conjunto Nacional, a Livraria Cultura tenta se equilibrar neste meio da Paulista. Peço ao funcionário informações sobre as obras de literatura latino-americana, em especial o argentino Julio Cortázar. Ele me indica a penúltima prateleira de uma estante próxima à parede. O acervo é farto e consigo encontrar ainda um livro de Alejo Carpentier sobre o Haiti, O reino deste mundo (ultimamente, estou como o Leminsky: confio mais na narrativa do realismo fantástico dos escritores latino-americanos que o discurso naturalista pretensiosamente verdadeiro da maioria dos jornalistas).

A Livraria Cultura ostenta nas suas vitrinas obras de Arnaldo Jabor, aquele mesmo imitador do Paulo Francis na Globo, mas sem o brilho e o intelecto da matriz. Sua única coincidência é se colocar na direita de forma espalhafatosa e travestir a grosseria de humor sarcástico. Mas o livro dele está lá fazendo frente a coletânea de poesias de Ferreira Gullar (poeta maravilhoso que ganhou as graças da indústria cultural por também se alinhar à direita). O clima noir e pretensamente cult da Livraria Cultura não tem como abrir mão destas concessões ao cultural market.

A Avenida Paulista é cinza, como os amores gris de Djavan. Sem graça, sem rumo, como os quatrocentões que se equilibravam na posição aristocrática e direitista que lhe garantia privilégios e a babação aos artistas, inclusive os rebeldes da Semana de Arte Moderna, para lhe garantirem um verniz. Amores gris de Djavan, aqueles que se realizam pela transa automática na noite e as alcunhas de “meu bem” e “meu amor” com o tédio de uma vida instrumental, completamente sem graça e que só ganha sentido com a crença de que haverá outra após a morte. Niilismo puro. Este é o espírito de parte da cidade de São Paulo e expresso na Avenida Paulista.

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