Observações do cotidiano

Simples mediocridade


Uma pessoa com que tive uma relação mais próxima insinuava que eu era um tanto arrogante e não respeitava pessoas simples. Sempre afirmava, esta pessoa, que para ela uma vida “simplezinha” era aceitável. Aquilo, no momento em que foi dito, tinha uma certa repercussão dentro de mim pois a arrogância é um dos defeitos que mais abomino. Acho que até esta pessoa sabia onde era minha ferida para tocar pois estas falas sempre eram ditas para afirmar uma posição de divergência comigo. Hoje, longe dela, consigo refletir melhor o que aquilo significava.

O que é ser simples? O contrário de simples é complexo. Então eu era complexo? Não encontrei muito sentido no aspecto etimológico. Mas eu interpreto esta fala da seguinte forma. Ser simples significava, para esta pessoa, levar a vida dentro dos padrões médios da sociedade, sem ousar. Para que complicar? Em outras palavras, é seguir na média. Média, médio, medíocre. Na verdade, ser simples era o equivalente a ser medíocre. Aí eu entendi o significado daquela fala, principalmente relembrando os exemplos de pessoas que ela chamava de “simples” – eram todos medíocres.

Como professor, deparo-me com este apelo da mediocridade. A célebre pergunta para que serve isto? quando você propõe na aula ou em reuniões com os meus “pares” uma reflexão para além do sentido instrumental-prático. Para que, por exemplo, mergulhar e se deleitar com uma obra de arte, seja uma peça de teatro, um filme de qualidade, uma pintura, uma escultura, uma fotografia bela, uma poesia ou uma música? A não ser que estas obras sejam produtos veiculados pela indústria cultural e o seu consumo significa ficar dentro do campo de conversas dos medíocres, fruir isto é uma tremenda bobagem para certas pessoas. Esta mesma pessoa, por exemplo, achava que eu lia livros apenas para dar conta das exigências da minha profissão. Na verdade, os livros que mais me dão prazer são os que leio sem qualquer necessidade de uso no meu trabalho como acadêmico.

Mas a vida medíocre é interessante. Muitas pessoas caem nela por ser a via mais fácil para subir na vida. Por isto, é comum ver esta mediocridade naquelas classes médias que ficam no limbo. Entendo, em certo sentido, esta opção. Ousar é arriscar e quem está na corda bamba sente medo. Porém, vejo que há um certo acomodamento, a chamada “zona de conforto”, o maior perigo para você se ajeitar na mediocridade. Tem muita gente no funcionalismo público assim. Batalha para passar em um concurso público para fugir da instabilidade do mercado de trabalho. Justo. A aprovação vem como uma grande vitória. Justíssimo. Mas aí vem o perigo – a zona de conforto seduz esta pessoa e ela se conforma com a única vitória. Sequer aproveita a condição de estabilidade para poder ousar mais. Já que ninguém cobra, fica como está.

Mas o desafio sempre aparece, a necessidade de buscar coisas novas, de conquistar, de continuar andando. Aí o desejo de conquista se desloca para o consumismo. Comprar carros novos, parafernálias eletrônicas modernas, viajar, etc. passa a ser o único objetivo a ser alcançado. E, mais que isto ainda, contar para o outro as novas “conquistas”. Isto que me incomoda em rodas de conversa de certos grupos de pessoas (principalmente aquelas famosas festas de fim de ano de serviço) – a conversa gira em torno de consumismo, de querer mostrar competência no serviço, de uma disputa meio sem sentido. Normalmente as rodas de conversa “masculina” giram em torno do consumismo. Irrito-me e vou para as rodas “femininas”: um pouco melhor, mas não muito – as conversas vão para discussões sobre a vida alheia, comentários maldosos de pessoas ausentes, etc – não deixa de ficar no terreno da disputa.

Há sempre um elogio tácito à ignorância nestas rodas. Você comenta alguma coisa que a maioria não conhece, ou fala de alguma experiência interessante destituída de qualquer pretensão consumista e todo mundo faz aquela cara de tédio, de desinteresse, de que é bobagem ou, no limite, te tolera como se fosse um estranho no ninho sempre seguido de um risinho de admissão da ignorâcnia temperada com a superioridade de ter um carro zero e os filhos estudando em uma escola cara.

Com tudo isto, consigo entender porque para estas pessoas a religião é necessário. Mergulhados em um turbilhão de mediocrização da vida humana, precisam acreditar em algo extra-humano para não caírem em si e verem como suas vidas são tão ridículas que não valem a pena. O negócio é rir também – um riso nãode superioridade, mas da situação que não deixa de ser risível.

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2 thoughts on “Simples mediocridade

  1. rafael diz:

    Caro Dennis,

    Verifico isso diariamente junto ao funcionalismo, e com colegas que sonham em se tornar um membro da burocracia. Já em mim, causa calafrios.

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