Comunicação e Jornalismo, Observações do cotidiano

Brincando com a realidade


As tecnologias contemporâneas da informação são analisadas, normalmente, na sua funcionalidade para a produção midiática ou em outras áreas da economia. Porém, acho mais interessante as suas possibilidades mais lúdicas. Estou cada vez mais adepto da idéia que a professora Lúcia Santaella, da Semiótica da PUCSP, afirmou certa vez em uma palestra na Unimep em 1992: “tudo que é bom não serve para nada”. Ela exemplifica: brincar, rir, ter orgasmo, não serve nada, não tem nenhuma funcionalidade, e por isto é bom. Trabalhar para ganhar dinheiro já tem um viés funcional (objetivo: ganhar dinheiro), por isto a melhor coisa do trabalho é o feriado, o final de semana ou as férias.Fui na exposição do Itaú Cultural emoção artificial 2.0 na semana passada e o mais interessante foi justamente o uso lúdico das tecnologias. Parafernálias tecnológicas permitiram uma mudança na concepção da relação obra de arte/público usando as possibilidades interativas das novas tecnologias para uma obra de arte mais flexível e não meramente legitimada por uma perspectiva aurática (como diria Walter Benjamin) e de contemplação.

 Além disto, as novas tecnologias permitem radicalizar o “brincar” com a realidade, afastando da concepção positivista de apropriação do real hegemônico no discurso “racional” ocidental. Nancy Burson fez vários experimentos em montagens fotográficas para criar “sínteses aritméticas” de situações, visualizando aquilo que Max Weber chamaria “tipo ideal”. Abaixo, listamos alguns deles:

Combinação digital dos cinco líderes mundiais que possuíam ogivas nucleares nos anos 80: Reagan, Mitterand, Brejnev, Den Chiao Ping, Thatcher.

Síntese aritmética das etnias que compõe a população da Terra com base na sua percentagem na população mundia: brancos, negros, amarelos e indígenas.

Síntese do primata que deu origem ao homo sapiens e o ser humano contemporâneo, imagem do que seria a "transição"

Serve para uma coisa tudo isto? Talvez para ver – ver mesmo, em imagens – que os tipos ideais, a média de estatísticas usadas em pesquisas é realmente “ideal”, nada parecido com o real. A brincadeira com a tecnologia desmistifica o cientificismo positivista e nos convida para brincar mais com a realidade ao invés de achar que podemos decodificá-la com exatidão.

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