Observações do cotidiano

Chicão


Recebi uma notícia chata semana passada. A esposa de um antigo amigo meu disse que ele tinha morrido do coração. Chicão era o nome dele, um cara que conheci no final do colegial e também na USP. Ele fazia História e eu, jornalismo. No colégio, participou das tentativas nossas de montar um grêmio dos estudantes. Naquela época, eu e uma turma de amigos lançamos um jornal na escola que tinha o pretensioso nome de “Pense…”. Fazíamos o jornal na minha casa, datilografando no seco um estêncil para mimeógrafo a tinta, tecnologia de ponta naquela época. O jornal teve três números até ser fechado pelo diretor da escola, um cara autoritário chamado Mário. Isto era 1980.

Mas Chicão era um cara muito interessante. No primeiro ano de faculdade, encontrávamos sempre no bar Riviera, no final da Avenida Paulista, por volta das 23h, depois da aula. Tinha uma turma de porra-loucas, alguns morando no Crusp, outros em república (uma delas chamava-se “Falanstério“, uma alusão às sociedades alternativas preconizadas por Charles Fourier). No boteco, o papo era sobre as teorias aprendidas em sala de aula. Chicão era um apaixonado por Foucault. Eu, naquela época, gostava do Althusser e do Lukács. O cara era tão apaixonado pela “microfísica do poder”, que quando o garçom demorava a nos servir, dizia “olha só, o cara está usando o seu poder que tem sobre a gente, nós dependemos dele para saciar a nossa sede e ele sabe disso!”. Achava isto um exagero, o bar estava lotado, percebia que o garçom estava atrapalhado para dar conta de atender tanta gente e considerava aquele comentário um tanto elitista e classista. Ele ficava puto quando falava isto. “Porra, meu, você acha que eu, um cara de esquerda, seria elitista? Além disto, sou um trabalhador, meu!” Althusser me salvava nestes momentos com a bendita ideologia que servia, naqueles momentos, para justificar tudo – principalmente os comportamentos alheios e não o seu, pois todo intelectual de esquerda nunca acha que ele é também “inculcado pela ideologia dominante”, só as “massas” dominadas.

Mas estes papos cabeça servem mais para dar risada da infantilidade dos nossos pensamentos de então. Havia outros momentos que me deixavam doido naquela época mas hoje também servem para rir. Morei durante um tempo na Bela Vista com uma namorada numa quitinete. Tinha 23 anos, e ela 25, com os hormônios a mil, denecessário dizer qual era o nosso  pique sexual, mesmo chegando chapado dia sim e dia não. Nos finais de semana, lá pelas 2h da matina, este cara tocava o interfone: “Cara , fui numa parada aqui perto e não tenho como voltar para casa, posso dormir aí?”. Numa kitinete, uma pessoa de fora incomodava.

Chicão era mestiço de japonês com caboclo, mistura estranha que o deixava com os olhos meios puxados e pele morena meio avermelhada. Não sei como ele se autoidentificava no censo do IBGE. Mas a malandragem dele era evidente. Como eu, detestava fazer campanha eleitoral. Quando chegava a época de eleições, era quase que uma obrigação nossa participar da campanha e da boca de urna. Aprendi com ele uma tática interessante: na rua, quando estávamos distribuindo os panfletos, sempre aparecia um para conversar mais. A gente esticava a conversa e consumia nosso “turno” de trabalho na campanha conversando com alguém interessante. Ele, mau caráter, gostava de fazer isto com meninas bonitinhas. Acho que o papo dele não ficava apenas na política, ia mais além.

Um assunto que rondava muitos nossos papos de cachaça era religião. Chicão era um ateu tão convicto, mas tão convicto que fazia a gente desconfiar. Sempre tenho um pé atrás quando uma pessoa reafirma uma posição com muita veemência, parecendo mais que ela está tentando convencer a si mesma do que o outro. “Cara, que Deus é esse que se diz tão bom mas leva pessoas boas?” ou ainda “O castigo divino contra Sodoma e Gomorra foi na verdade uma puta ação homofóbica!” lembrando a passagem bíblica do castigo divino contra estas duas cidades cujos moradores praticavam atos “devassos”, entre os quais a homossexualidade.

Eu sempre tive uma relação meio niilista com a religião ou com a existência de Deus, principalmente quando, na minha infância, a minha professora de religião na escola (a opção da minha família foi o ensino religioso evangélico, por conta da religião da família do meu pai) disse que se pedíssemos qualquer coisa para o “Papai do Céu” em forma de oração ele nos atenderia. Fiz isso uma única vez quando um avô fake meu, o vô Armando, que tinha um sítio em Tarumã (perto de Assis) estava mal no hospital. Pedi ao “Papai do Céu” que ele não morresse. No dia seguinte, de manhã, durante o café, meu pai disse que o vô Armando tinha morrido. Saí da mesa, puto da vida, com lágrimas escorrendo pois o tal do “papai do Céu” não tinha me atendido. Falei com minha professora de religião e ela disse que “Deus sabe o que faz”. Pensei então comigo: “que adianta pedir a Deus então se ele faz o que quer?” – apenas pensei, não falei nada pois tinha medo que a professora me mandasse para a diretoria.

Mas este momento foi marcante para desconfiar da religião e de qualquer discurso que aponte que o que a gente vive aqui tem um “cara”  lá no alto decidindo tudo. Mas o ateísmo de Chicão também não me seduzia, parecia algo muito canastrão de tão exagerado que era. Assim como ele tocando violão. Só depois de muita cerveja ou muita maconha que dava para achar que ele tocava alguma coisa. Foi assim numa festa no Crusp (moradia estudantil da USP) nos anos 80, para celebrar a ocupação do prédio que estava fechado pela reitoria. Lá pelas tantas da madruga, ficaram só os “párias”, rolava de tudo  na festa e o Chicão com o seu violão desafinado, tocava os seus acordes. O pessoal, chapado até as últimas, achava o cara o próprio Celso Machado (um violonista fantástico que tinha a ousadia de tocar no violão a música São Vicente, de Mílton Nascimento, só com uma mão – fazendo os acordes com dois dedos e dedilhando com os outros três  – enquanto a outra mão segurava um copo de uísque). Naquele dia, acordei de manhã ao lado de uma estudante de jornalismo que hoje é uma importante colunista de um grande periódico (razões pelas quais não vou dizer o seu nome aqui). Mas não me lembro o que aconteceu, só sei que levei a fama, sei que deitei na cama mas não sei se apenas deitei. Depois disto, ela me olhava meio desconfiada, mas nunca tive coragem de perguntar nada.

Por tudo isto, Chicão dizia detestar velórios. “Sou mais tomar  uma dose no Riviera”, dizia ele. Acho que o problema da sua ojeriza com a religião é que ela fala muito em morte (vida após a morte, reencarnação, Céu, Inferno, ressurreição, e por aí vai). Ele não queria discutir a morte porque amava a vida. A vida dirige-se para a morte, mas todo o malandro valoriza mais o caminho que o seu destino. Luiz Melodia compara o swing com o jeito negro de jogar futebol: “Não tem pressa de chegar o gol, o barato é brincar com a bola, driblar e o gol é um acidente de percurso, assim como o swing, a sensualidade não é para acabar na cama, mas para cortejar, o sexo é como o gol, um acidente de percurso”. A morte é um acidente de percurso, o legal é  brincar com a vida o máximo que se pode.

Depois que terminei a faculdade e tomei outros rumos na minha vida, perdi o contato com o Chicão. Volta e meia chegava notícias para mim por meio de outros. Tentei encontrá-lo via redes sociais, mas sabia que ele não era muito chegado a isso.  Ele se casou com uma mulher muito chata, metódica, já a conhecia de outros tempos. Talvez isto tenha contribuído para o meu afastamento. Ela teve o cuidado de me achar via o currículo lattes (o Panóptico de Jeremin Bentham, discutido por Foucault, que existe no mundo acadêmico). Mandou o email e até falou do enterro e da missa do sétimo dia. Não respondi o email. Chicão dizia que detestava tanto velório e enterro, que se fosse possível, nem no dele ele iria. Do jeito que ele era malandro, com certeza deu um jeito de escapar desta e dar um pulo no boteco tomar mais uma. Pensei: “Filho da puta, não me chamou para a saideira”.

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One thought on “Chicão

  1. João Angelo Giordano diz:

    Gostei muito da história. Interessante o que fazemos e pensamos no decorrer dos anos e notar o qto se muda de opnião durante! E pensar que as vezes achamos que o mundo é tão grande, ledo engano primário né !!!! Abraços.

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