Observações do cotidiano

Caras de princípios


Da esquerda para a direita: Marta, Fátima, Davi e eu no bar do Juarez

Na semana passada, encontrei uma turma de amigos, militantes do movimento estudantil no Bar do Juarez, no Itaim. Motivo do encontro: a vinda de uma amiga que atualmente reside na cidade de Mariana (MG) e estava na capital paulista para participar de um congresso de jornalismo. A rede de emails foi grande, mas apenas quatro pessoas, incluindo eu, compareceram ao encontro.
Militamos no movimento estudantil nos anos 80. Naquele período o Partido Comunista do Brasil tinha uma corrente de atuação no movimento estudantil chamada Juventude Viração que, em 1985, transformou-se em uma entidade que existe até hoje, a UJS (União da Juventude Socialista). Pegamos o período de transição da ditadura militar para a democratização do país.
Uma das nossas amigas presentes ao encontro falou da crise de identidade da nossa turma: “a gente não faz parte nem da geração daqueles que lutaram contra a ditadura e foram presos e até torturados e nem também dos atuais caras pintadas que pegaram o período de liberdades democráticas”. Ficamos no limbo. Fiquei pensando onde está o pessoal dos anos 80 hoje. Daquela turma, boa parte está trabalhando no governo Lula mas não nos principais cargos – estes estão majoritariamente ocupados pela geração dos “caras presos e torturados”. Já a turma dos caras pintadas tiveram grande visibilidade e alguns deles ocupam cargos de destaque, como o então presidente da UNE na época das passeatas contra o Collor, Lindbergh Farias.
Outra coisa que me chamou a atenção é que toda a nossa turma, embora não esteja mais organicamente militando, mantém suas posições progressistas. Falamos muito, na mesa, das manipulações da mídia hegemônica contra o governo Lula, das realizações do atual governo, das ações sociais, etc. Engraçado. Enfrentávamos, no movimento estudantil, uma série de correntes político-ideológicas que nos chamavam de “reformistas”, “pelegos”, “conciliadores com a burguesia” e até “caretas”. Muitos destes são os principais operadores da direita. Alguns estão no comando de jornais conservadores como a “Folha de S. Paulo”. Exemplos: Cleusa Turra (na minha época de estudante, seu apelido era “Pituca” e presidia o DCE da USP) atual diretora do segmento de revistas da Folha; Laura Capriglione (também da USP, que foi diretora do DCE na gestão da “Pituca”) ex-editora adjunta da FSP, Demétrio Magnolli (este mesmo, o panfletário defensor da não implementação de ações afirmativas, foi candidato a presidente da UEE-SP em 1983). Todos eles pertenciam a uma corrente pretensamente de extrema-esquerda chamada “Liberdade e Luta”, hoje conhecida como corrente “O Trabalho”. Lembro-me destes que enchiam o nosso saco. Eram irascíveis nas críticas a nossa postura. Hoje continuam irascíveis também mas do lado direito.
Fico feliz em reencontrar pessoas que partilharam da nossa trajetória. E mais ainda ao perceber que a postura de militância do período não era arroubo de juventude. Era princípio de vida. Se não ficamos famosos, nossa cara não mudou.

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