Comunicação e Jornalismo

Vitórias simbólicas na Copa do Mundo


Dia 2 de julho de 2010, sexta-feira. O capitão da seleção holandesa, Van Bronckhorst, pouco antes da execução dos hinos nacionais de Holanda e Brasil, lê o seguinte texto:

“Em nome da seleção da Holanda, declaro que rejeitamos de todo o coração o racismo e todo tipo de discriminação dentro ou fora do campo. Confiamos no poder do futebol para unir homens e mulheres de todas as raças, religiões e nacionalidades. Nos comprometemos a perseguir este objetivo e pedimos a todos para que se juntem a nós na luta contra o racismo, onde quer que seja”.

Na sequência, o capitão da seleção brasileira, Lúcio, leu o texto:

“Em nome da seleção do Brasil, declaro que nos negamos a tolerar qualquer forma de discriminação no futebol e apelamos a todos os que nos estão vendo hoje, onde quer que estejam no mundo, para que nos ajudem a erradicar a discriminação em nossa sociedade. Se todos nos unirmos, poderemos conseguir. Diga não ao racismo”.

Os africanders, ou bôeres, são de origem holandesa. Foram  descendentes de holandeses que protagonizaram um dos regimes mais odiosos da história recente da humanidade, o apartheid na África do Sul. Regime que deixou Nelson Mandela na prisão de 1962 a 1990.

Em 2 de julho de 2010, no estádio de nome Nelson Mandela, um jogador holandês clama pelo combate ao racismo. O capitão da seleção do país com maior número de negros fora da África faz o mesmo. Foram textos lidos, preparados pela FIFA. Alguns podem chamar isto de pura encenação. Prefiro ver o simbolismo deste ato – um holandês clamar pelo fim do racismo, contrário a parte dos seus ascendentes que ajudaram a criar o apartheid. Um brasileiro clamar pelo fim do racismo, contra os vários que aqui ainda insistem negar a existência do racismo.

Pena que os jornais no dia seguinte da derrota do Brasil não falaram nada disto. O jornalismo esportivo ainda prefere os simbolismos dos tabus babacas: “faz tantos anos que o time tal não marca gols no primeiro tempo contra time sicrano”; “desde que o time A começou a jogar com a cor lilás, nunca venceu uma partida nos pênaltis” e por aí vai.

África do Sul e França

O jogo, quando realizado, pouco valia, pois as duas seleções precisavam de verdadeiro milagre para se classificar. A África do Sul saiu orgulhosa com sua vitória por 2 a 1 contra a poderosa França.

Naquela partida, tive o prazer de ouvir os dois hinos nacionais mais bonitos. O da França, a Marselhesa, um canto de guerra entoado pelos revolucionários de 1792 e simboliza a grande transformação humana no Ocidente no século XVIII – a construção da sociedade com base nos princípios da república, da democracia, do Iluminismo. O refrão diz:

Aux armes, citoyens, /Formez vos bataillons,/ Marchons, marchons !/ Qu’un sang impur/ Abreuve nos sillons !           

Às armas, cidadãos,/ Formai vossos batalhões,/ Marchemos, marchemos!/ Que um sangue impuro,/ Ague o nosso arado!

O Hino Nacional da África do Sul foi composto de várias canções diferentes, entre elas a popular canção entoada pelo Congresso Nacional Africano durante suas jornadas contra o apartheid e que virou a primeira parte do hino sul-africano:

Nkosi sikelel’ iAfrika/ Maluphakanyisw’ uphondo lwayo,/ AYizwa imithandazo yethu,/Nkosi sikelela, thina lusapho lwayo.

Deus abençoe a África/ Que suas glórias sejam exaltadas/ Ouça nossas preces/ Deus nos abençoe, porque somos seus filhos

Esta música simboliza a grande luta do povo sul-africano contra o apartheid e simboliza a grande figura que esteve presente no coração e mente de todos os participantes e espectadores da Copa do Mundo: Nelson Mandela.

P.S. – Quero com este post oferecer às pessoas um outro olhar sobre a Copa do Mundo livre de discussões sobre dungas, felipes melos, kakas, cebeefes etcétera e tal. Esta história de amor e ódio por times de futebol é uma constante e em uma próxima oportunidade irei falar sobre isto. Por enquanto, prefiro olhar este evento sob estes simbolismos que nos dão um certo otimismo – de que é possível construir um mundo melhor.

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One thought on “Vitórias simbólicas na Copa do Mundo

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